Palavra
rica como tantas da língua portuguesa, a fidelidade. Habitualmente a usamos
para um de seus significados, quando se trata de uma relação amorosa. Um dos
que forma o par a reivindica, quer nela encontrar a expressão, a demonstração
de que o (a) outro (a) representa aquilo que idealiza. É, portanto, um jogo de
expectativas.
Porém,
o termo fidelidade possui mais definições e aplicações.
Na
farmácia, ao alcançar o balcão logo vem a pergunta: “O senhor já possui o nosso
cartão de fidelidade?”. O cartão, segundo eles abre um universo maravilhoso de
descontos, bom atendimento, serviços especiais e milhares de pontos a serem
trocados por coisas pouco úteis em troca da fidelidade no consumo. E essa
relação é curiosa porque alguns de fato criam tal vínculo. Mas é só consumo,
são coisas.
Nas
manifestações artísticas também é muito empregada. Uma obra, seja em que
linguagem for, produzida a partir de outra, pode ou não guardar fidelidade à
primeira. Quando assisti ao filme Vidas Secas fiquei impressionado com a sua proximidade
da obra literária escrita por Graciliano Ramos. Não apenas pelos diálogos, que de fato eram
poucos, mas pela riqueza de detalhes na produção que traduzia muito bem pelas
imagens a rusticidade da vida no semiárido descrita no livro.
Mas
prefiro tratar aqui da que significa coerência, precisão, aderência,
responsabilidade com aquilo que se pensa.
Na
vida em sociedade somos identificados e nos identificamos com aqueles que
supomos terem visão de mundo próxima daquela que constituímos. É assim que as
aproximações e distanciamentos se dão. E esse processo não é imediato. São construídos
ao longo do tempo, tanto os distanciamentos quanto as aproximações.
Vale
nas nossas relações mais próximas, assim como nas de trabalho, na política...
Porém,
neste último caso, o da política, onde talvez a subjetividade subjacente aja
mais, é onde estão também grandes surpresas.
Cá
no meu microcosmo assisto a picadas da mosca azul, tentativas de puxada de
tapete, estelionatos eleitoreiros regados a muita, mas muita mediocridade. É
impossível cobrar coerência, consistência, posição, já que não há pressupostos,
princípios, ética para os que ao outro lado foram, ou que talvez de lá nunca
saíram de fato.
Há,
portanto, tão somente uma fidelidade a sede de alcançar uma posição. Pensar em
o que fazer com ela é mero detalhe, ficará para outro momento. Oportunistas
circunstanciais embriagados por um frenesi acéfalo. Por isso, são por natureza
natimortos esses projetos.
Em
uma música, intitulada Fidelidade Partidária, os autores Wilson Moreira e Nei Lopes descrevem o que no seu entendimento é o comportamento fiel ao modo de
vida de sua comunidade, quando perguntados pela tia-avó centenária, Rosária,
sobre o que é fidelidade partidária.
Lembro
que neste caso, a expressão partidária dá significado para a comunidade em que
se está inserido e deriva de “partideiro”, denominação dada àquele que
interpreta e que participa das rodas de samba, que tem raiz.
Partido
tem como raiz parte. Parte pode ser uma fração de algo, pode ser uma causa,
pode designar um lugar. Mas o melhor de seus significados neste contexto é:
lado.
Tenho
lado, faço sua defesa e o declaro. Às vezes ouço alguns bradarem que estão do
mesmo lado, mas curiosamente, desses alguns, ouço a voz fraca, difícil de
ouvir. Talvez porque não a do corpo, mas a voz da alma venha lá de longe, do
outro lado.
Palavra
rica como tantas da língua portuguesa, a fidelidade, segue mal tratada.
Ouçam
a música com letra no link abaixo.
Suzano,
24 de maio de 2012