quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sobre a Fidelidade

Palavra rica como tantas da língua portuguesa, a fidelidade. Habitualmente a usamos para um de seus significados, quando se trata de uma relação amorosa. Um dos que forma o par a reivindica, quer nela encontrar a expressão, a demonstração de que o (a) outro (a) representa aquilo que idealiza. É, portanto, um jogo de expectativas.

Porém, o termo fidelidade possui mais definições e aplicações.

Na farmácia, ao alcançar o balcão logo vem a pergunta: “O senhor já possui o nosso cartão de fidelidade?”. O cartão, segundo eles abre um universo maravilhoso de descontos, bom atendimento, serviços especiais e milhares de pontos a serem trocados por coisas pouco úteis em troca da fidelidade no consumo. E essa relação é curiosa porque alguns de fato criam tal vínculo. Mas é só consumo, são coisas.

Nas manifestações artísticas também é muito empregada. Uma obra, seja em que linguagem for, produzida a partir de outra, pode ou não guardar fidelidade à primeira. Quando assisti ao filme Vidas Secas fiquei impressionado com a sua proximidade da obra literária escrita por Graciliano Ramos.  Não apenas pelos diálogos, que de fato eram poucos, mas pela riqueza de detalhes na produção que traduzia muito bem pelas imagens a rusticidade da vida no semiárido descrita no livro.

Mas prefiro tratar aqui da que significa coerência, precisão, aderência, responsabilidade com aquilo que se pensa.

Na vida em sociedade somos identificados e nos identificamos com aqueles que supomos terem visão de mundo próxima daquela que constituímos. É assim que as aproximações e distanciamentos se dão. E esse processo não é imediato. São construídos ao longo do tempo, tanto os distanciamentos quanto as aproximações.

Vale nas nossas relações mais próximas, assim como nas de trabalho, na política...

Porém, neste último caso, o da política, onde talvez a subjetividade subjacente aja mais, é onde estão também grandes surpresas.

Cá no meu microcosmo assisto a picadas da mosca azul, tentativas de puxada de tapete, estelionatos eleitoreiros regados a muita, mas muita mediocridade. É impossível cobrar coerência, consistência, posição, já que não há pressupostos, princípios, ética para os que ao outro lado foram, ou que talvez de lá nunca saíram de fato.

Há, portanto, tão somente uma fidelidade a sede de alcançar uma posição. Pensar em o que fazer com ela é mero detalhe, ficará para outro momento. Oportunistas circunstanciais embriagados por um frenesi acéfalo. Por isso, são por natureza natimortos esses projetos.

Em uma música, intitulada Fidelidade Partidária, os autores Wilson Moreira e Nei Lopes descrevem o que no seu entendimento é o comportamento fiel ao modo de vida de sua comunidade, quando perguntados pela tia-avó centenária, Rosária, sobre o que é fidelidade partidária.

Lembro que neste caso, a expressão partidária dá significado para a comunidade em que se está inserido e deriva de “partideiro”, denominação dada àquele que interpreta e que participa das rodas de samba, que tem raiz.

Partido tem como raiz parte. Parte pode ser uma fração de algo, pode ser uma causa, pode designar um lugar. Mas o melhor de seus significados neste contexto é: lado.

Tenho lado, faço sua defesa e o declaro. Às vezes ouço alguns bradarem que estão do mesmo lado, mas curiosamente, desses alguns, ouço a voz fraca, difícil de ouvir. Talvez porque não a do corpo, mas a voz da alma venha lá de longe, do outro lado.

Palavra rica como tantas da língua portuguesa, a fidelidade, segue mal tratada.

Ouçam a música com letra no link abaixo.
Suzano, 24 de maio de 2012