sábado, 7 de abril de 2012

Cultura e a construção de um mundo diverso.




O crescimento vertiginoso das visões de ultra-direita em todo o mundo é um fato. Elas se mostram de diversas formas. Pelas impressões dadas em frequentes manifestações individuais, assim como pelo fortalecimento de organizações que defendem diretamente seus posicionamentos, implicando na forma de condução do Estado, sobre o mercado ou até sobre o comportamento das pessoas.
Estão pautados principalmente pela intolerância às diferenças no padrão de comportamento que se manifestam nas orientações sexuais, nas opções políticas, nas opções religiosas, nos traços étnicos e culturais diferentes dos seus e principalmente na defesa da priorização dos direitos individuais em detrimento dos coletivos.
Propagam-se de forma veloz, apoiadas nos recursos trazidos pela revolução tecnológica que vivemos nos últimos anos, pois, se é verdade que eles tem garantido maior troca de informações e portanto, o aprimoramento do conhecimento sobre nossas diferenças, contraditoriamente tem ecoado, espantosamente por meio de jovens, pensamentos xenófobos, racistas, islamofóbicos, homofóbicos e de ataque aos direitos humanos.
Os Estados, para alguns, devem criminalizar mecanismos como os movimentos sociais, devem desonerar o sistema produtivo a partir da redução dos direitos dos trabalhadores, devem afrouxar o controle sobre o mercado imobiliário favorecendo a especulação, devem levar ao mínimo a regulação sobre o mercado produtivo e financeiro, adotar medidas desequilibradas nas relações comerciais internacionais e ter largo poder de polícia e bélico para assegurar a devida tranquilidade nessa ordem estabelecida, assim como para seu aprofundamento.
São muitos os exemplos de fatos recentes preocupantes, para além dos históricos já conhecidos.
No ano de 2011, A Bolívia deveria ser invadida. A saída negociada em torno do impasse da questão energética era demonstração de fraqueza. Tantos, a qualquer tempo declaram publicamente nas redes sociais sua aversão aos nordestinos, aos negros, aos homossexuais. Muitos atacam sistematicamente programas sociais brasileiros que evitam milhões de mortes na miséria, que emancipam outros milhões e que garantem o acesso à formação acadêmica, aos bens de consumo e a terra, sob a magnífica lógica contrária do “ensinar a pescar em vez de dar o peixe”, como se ele, o “peixe” fosse tão fácil de se agarrar.
Foram mortos quase uma centena de jovens na Noruega, em 23 de julho de 2011. Três crianças e um adulto judeus mortos na França por neonazistas em 19 de março de 2012. Avançaram organizações como o Tea Party, nos Estados Unidos e governos na Europa que buscam reproduzir um modelo em que o aparato estatal deve seguir a extensa e sofisticada cartilha dos interesses do GRANDE capital.
Nesse contexto de intolerância, os atos de violência como os citados esperam somente a oportunidade. Eles representam a ponta do iceberg de pensamentos e posicionamentos inconfessáveis que alimentam o ódio que vem avançando na forma de um traço comportamental e cultural do pensamento hegemônico vigente.
Naturalmente, essa sofisticada engenharia não está, e ainda bem, imune à reação e resistência. Assim como o mundo assiste ao avanço da extrema-direita, houve manifestações contrárias certas vezes mesmo violentas, como a que observamos há algum tempo na Inglaterra, sobre a qual caberia um debate específico, já que o estopim, mais do que um fato pontual da morte de uma pessoa, foi na verdade uma reação a crescente atmosfera de cerceamento, de intolerância e da constante redução dos direitos, entre outros à assistência social.
Porém, as mais importantes e que devem ser incentivadas, são as iniciativas de resistência que disputam na sociedade a compreensão de que a diversidade, respeitada e estimulada, é a chave do processo civilizatório. Compreender que é normal ser diferente se faz necessário e a principal forma de expressão dessa diversidade se dá por condições a serem criadas e incentivadas de se deparar com a diferença. O mecanismo mais eficiente para essa construção é o acesso à cultura. Mas porque também não dizer, das culturas.
Nos últimos anos, o conceito governamental de cultura no Brasil ampliou seu leque para além da visão tradicional que considerava apenas algumas áreas das artes, notadamente as classificadas como eruditas, como formas de expressão cultural. Hoje, compreende-se como cultura uma vasta gama de expressões e de costumes, dentre tantas outras coisas. Elas se mantêm resistentes a um padrão de comportamento trazido e incentivado no processo de globalização que ganha cada vez mais musculatura, o de consumo.
Este embate, um conflito permanente e desigual, existe em qualquer lugar. É disputado em trincheiras igualmente desiguais, tanto que por muitas vezes o poderio do capital compra, incorpora às suas estratégias de negócio, expressões e manifestações culturais. Transformam-nas em produtos, e como qualquer outro produto, embutido neles a mais-valia. São capazes de comprar, transformar a capacidade de criação em um objeto de mercado. Enfim, se apodera dos meios de produção do outro, neste caso dos fazedores de cultura, do povo, tamanha a sua sofisticação.
Porém, como disse certa vez um grande estudioso do processo de globalização, o geógrafo Milton Santos, da mesma forma que existe uma intensa pressão do comportamento hegemônico sobre os lugares e sobre as culturas locais, há também nestes lugares uma resistência que pretende algo muito simples, mas muito valioso: a busca do direito à identidade.
Assim, entre vitórias e derrotas, essa disputa segue seu curso.
Quanto ao papel do Estado, igualmente em disputa, do lado de cá, entendo que ele, como síntese da sociedade, deve incorporar a diversidade como algo a ser preservado, estimulado e difundido.
Conceituar a cultura assim, de forma ampla, cria as condições para que se possa idealizar e implantar políticas que explorem cada vez mais a garantia do acesso, da livre manifestação cultural e da compreensão de um mundo diverso como de fato é.
A crescente oportunidade de se deparar com a diferença, compreendê-la e aprender com ela, têm um efeito que colabora com o avanço da humanidade. Ampliar esse debate é fundamental.
Não apenas a tolerância, mas o efetivo respeito e o apreço pelo diferente representam a mais eficiente resposta. Certamente está aí um dos caminhos para a construção da justiça, da fraternidade e da paz no mundo, ainda que sob tensão permanente.

20 de março de 2012, em Suzano.

Zé Candido



No início dos anos 90, cheguei à cidade de Suzano pela primeira vez. Mas vim de fato para conhecer uma grande família grande. O pai, a mãe e seis dos seus sete filhos. Um dos filhos, que já havia conhecido no interior de São Paulo, foi quem me levou aos demais.
Eles moravam numa casa no Jardim Revista, bairro da periferia desta cidade. Era uma casa grande e simples construída em um terreno acidentado e numa rua sem pavimentação. Do topo do morro, no Revista, era possível ver do lado de cá, na margem direita do Tietê, o “buracão”, uma área inundada da várzea e na outra margem à diante, o centro da cidade. Uma bela vista.A casa tinha as suas portas constantemente abertas, pelas quais passavam livremente os seus amigos e vizinhos.As crianças (moradoras ou não) brincavam na sala. A mãe, Dona Laura, eu vi preparando uma refeição, interrompida diversas vezes por amigos e vizinhos que chegavam. O pai, José, amistoso e gentil, entrava em casa, falava com quem lá estava e saía rapidamente. Tinha mil coisas a fazer.José Candido, era ele.
Militante do PT e vereador. O único a se opor ao modelo e ao poder constituído na cidade que mantinha suas mazelas há décadas para a manutenção do enriquecimento de poucos, de forma que o desejo da grande maioria excluída era sufocado.Seguiu como vereador por quase todo o tempo como a única voz a defendê-los, os sufocados.Assim como a grande maioria excluída era sufocada, tentavam sufocá-lo. Não abriu mão de sua posição.
José Candido manteve uma vida modesta e criou seus filhos com a mesma dignidade que qualquer outro trabalhador conseguiria com seus proventos. Lutava pela garantia de direitos às pessoas, na mesma medida em que essas garantias deveriam ser conquistadas para os seus próprios filhos. Não queria mais para os seus.
Ao contrário de tantas pessoas, ele colocou sua vida privada a serviço do público.
Esse jeito do Zé Candido de encarar a vida, de qual era o seu papel na sociedade me chamou muito a atenção e é certamente o que fez com que muitas pessoas o respeitassem e tantas outras o seguissem. Foi isso que observei, constatei e posso testemunhar como algo verdadeiro.
De lá para cá, seus frutos continuaram a semear o bem comum. Por isso Suzano avançou tanto com o Marcelo, sem fisiologismos, sem a sobreposição de interesses pessoais sobre os coletivos.
Hoje completam sete dias da morte de José Candido.Não podemos mais falar com ele, mas podemos visitar sua história e continuar a encontrar nela respostas sobre o que fazer.
No dicionário, cândido quer dizer: adj. 1 Alvo, imaculado. 2 fig. Puro, ingênuo, inocente. É assim que o vejo e o seu legado.19 de fevereiro de 2012, em Suzano/SP

CARTA AOS MEUS AMIGOS




Dia desses me peguei a pensar sobre o tempo, como a gente o sente. A pensar como passa ligeiro quando nos deparamos com uma tarefa quotidiana, ao constatar o quanto uma criança cresce rápido, assim como para viver a própria vida. A pensar sobre como nos escapa rapidamente. Em como parece com a areia fina e seca que foge das mãos por entre os dedos, por mais que a gente se esforce em segurá-la. Areia de ampulheta. Aquele tempo cantado pelo DJ Thaíde “que não volta nunca mais”.
Pensei no futuro que vem chegando, na precisão do relógio. O novo, o incerto e incógnito. A vanguarda! Ele compreende as coisas do mundo com frescor, com a leitura moderna e singular, capaz de explicar e solucionar tudo.
Já o passado sabido, que também carrega seus mistérios, por outro lado tem a capacidade de recapitular. Fruto do acúmulo histórico narra, faz a crítica, entende outro tanto de coisas. É a memória de tudo e por isso é capaz até de antever para onde vai o novo, já que muitas vezes é o velho-novo, o eterno retorno de Nietzsche.
A construção lógica do tempo estabelece uma referência sobre aquilo que vem e o que passa. Na sua métrica cartesiana pretende bestamente pôr algum controle sobre aquilo que não nos pertence. Mas pelo mesmo raciocínio lógico e, portanto humano, ouvi de um grande amigo, que a gente é que passa por ele (o tempo). Está aí parte da resposta. Tudo não é nada além de uma questão de escala. De fato a gente é que passa por ele!
Isso permite compreender a frágil presença da existência, pelo menos a do indivíduo. É como o velho pescador de Hemingway, em “O Velho e o Mar”, que se perde em meio à imensidão do oceano numa épica batalha contra um peixe e que dela resulta um sentimento de força, de grandeza, mas que morrerá junto com o velho.
Individualmente, viemos do nada e para ele vamos. Pode demorar algum tempo, mas vamos. Como me disse um companheiro, à luz da definição que parte de um filósofo, cujo nome não me recordo, de que a “existência é algo entre dois nadas”.
Apesar disso tudo, somos instintivamente impulsionados a fazer, a fazer sempre, enquanto aquele mesmo tempo permita. É, pois, da natureza humana. Em erros e acertos, construímos algo que efetivamente sabe-se lá onde vai dar. A gente faz coisas, constrói edifícios, o nosso mundo, um punhado de idéias e conceitos, promove mudanças.
Tentamos a todo custo nos tornar imortais ou imortalizar algo. Buscamos acreditar em algo além da vida por meio da fé, projetamos os genes à diante, tentamos fazer e marcar a história. Usamos uma série de artifícios numa engenhosa tentativa de contra-atacar e de contrariar o rigoroso e impassível tempo.
Há poucos dias perdemos um grande companheiro. Juarez Araújo Braga, o professor Juarez, ou simplesmente o Juju, como também era conhecido. Falo dele, mas tomo a liberdade de citá-lo como exemplo de tantos outros de grande valor também nos deixaram.
Ele representava a história viva de um período tão importante, mas que já vem sendo de forma sistemática colocado de canto, num canto que tende ao esquecimento. Foi militante do Partido Comunista, o partidão, numa época em que era muito mais difícil assumir uma postura à esquerda.
Filósofo, formado tardiamente para os padrões comuns escrevia muito, assim como pensava. Com mais de setenta anos, quando o conheci, não negava, ao contrário, nos convocava a uma mesa de bar, local onde “resolvemos todos os problemas do mundo”, com muita disposição, alegria e boa conversa.
Ficará assim na minha memória, enquanto ela existir.
Temos de contar a nossa história, daqueles que estiveram e que estão conosco. Faço e farei isso sempre. Celebrar a vida acima de tudo entendendo a sua grandeza e fragilidade, especialmente daqueles que me cercam, de forma que a gente possa sempre lembrar, reconhecer e cuidar uns dos outros.
O tempo é o que nos resta.

Outubro de 2010
Opiniões da Aninha/Carol em março de 2009. ...Fgghffdddffghfgteddfffdsmkikllpo0o9iopoiixxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxx xxxxxxcrfrfrfrfru6i,o,o9,umyntbrv3degggggggggggggggggggggGGGGGGG~~~M ,   I-NUIN INNININNNNUUUNUUUUUUUUUUUUU TGFO NNNNUU-IK NNNNI I NNI-IPLK-B
Belo texto...

Começa hoje...

Este blog foi criado para registrar pensamentos. Se coerentes ou não, devem expressar o pensamento sobre coisas em seu tempo, ao vivo.