Essa relação com a língua, a nossa língua
portuguesa, é permanente e enriquecedora, seja porque exercitamos o que
conhecemos quando lemos ou falamos, seja pelas descobertas sobre aquilo que
achamos que conhecemos.
Usei muitas vezes de forma equivocada a expressão
“mensagem subliminar”. Achava bonita, cheia de charme. Usava quando queria
dizer que alguém quisesse ocultar algo, dissimular um debate qualquer, que
quisesse usar argumentos para defender uma posição que não pudesse ser exposta.
Enfim, um bom recurso, até por vezes uma muleta.
Porém, alertado por um camarada, Miguel Reis, descobri
que passei vergonhas sem saber até então. Disse-me ele: - A expressão correta
nesse caso é “mensagem sub-reptícia”. Corri ao dicionário e confirmei. Sub-reptício
quer dizer: que se faz ou se busca com dissimulo ou de forma oculta.
A tal da mensagem subliminar é outra coisa e fica
para outra vez.
Lembrei-me desta distinção quando lia uma história
infantil para minha filha, Ana Carolina. A história era a de “João e o pé de
feijão”.
Era uma tarde boa, de sol. Sentei no quintal,
peguei o livro e comecei a contar. Ela parece simples e inocente. Começa assim:
João e sua mãe são muito pobres e diante do aperto
a mãe pede para João levar a vaca para que fosse vendida. Certamente não havia
mais nada que possuíssem. João, uma criança, leva então a vaca por uma estrada.
No caminho, João encontra um senhor que pergunta a
ele o que está fazendo com aquela vaca. João diz que vai vendê-la. Então o
senhor lhe faz uma oferta e propõe a troca da vaca por feijões mágicos. O garoto
fica fascinado pela proposta e realiza o negócio. Ao chegar a casa, João mostra os feijões. A
mãe fica indignada, os joga pela janela e manda o menino para a cama.
No dia seguinte os feijões brotaram. Pela janela,
João viu um pé de feijão gigante que tocava as nuvens. Como era um menino
peralta, tratou de subir nele.
Lá em cima nas nuvens, João avista um castelo.
Entra e descobre que lá habita um gigante. Não chama a atenção do menino o
gigante, mas sim uma galinha. Ora, mas uma galinha? O que há de especial nela?
Ah... Ela põe ovos diferentes. São de ouro.
João então percebe num determinado momento que o
gigante adormeceu. Pega a galinha, uma harpa e corre em direção ao topo do pé
de feijão.
Ao se aproximar do pé de feijão, deixa cair a
harpa. O som emitido pela harpa acorda o gigante que, ao dar falta de sua
galinha, começa a perseguir o menino.
João, com certa vantagem, vem descendo o pé de
feijão, com a galinha é claro, e chega ao chão, enquanto o gigante continua
descendo pelo mesmo caminho e pede para a mãe um machado e começa a cortar o caule.
Cai o pé de feijão e com ele o gigante. Morrem o pé de feijão e o gigante. Este
último, certamente com traumatismo craniano.
Sem nenhum arranhão, o menino e a mãe vivem felizes
para sempre, com uma galinha botando ovos de ouro. Portanto, super ricos.
Essa é a história.
Ao ler a história comecei a pensar nas possíveis
mensagens sub-reptícias e descobri nela uma história de sucessão de crimes.
Logo no começo, a mãe pede para uma criança cumprir
uma tarefa de adulto: - Vá lá e venda a vaca, disse ela. Ora, essa não deveria
ser uma tarefa atribuída a uma criança, pesa ainda mais numa história infantil.
Como diz a música do grupo Palavra Cantada “criança não trabalha, criança dá
trabalho”. Já começa a história com um crime, o do trabalho infantil.
Depois, o senhor troca a vaca por feijões
supostamente mágicos. A história não diz que ele tinha outros e que os havia
testado, fazendo assim o senhor da história não passar de um estelionatário.
Aliás, acredito que a magia dos feijões está de fato na noite mal dormida do
menino que rezou pedindo muito para não ter feito uma burrada.
Por fim, vem a situação do gigante. Está ele
sossegado em seu castelo. O menino João rouba sua galinha que põe ovos de ouro
e depois, ao derrubar o pé de feijão, fere de morte o gigante. Trata-se praticamente
de um crime de latrocínio. E o mais curioso é que ovos de ouro não devem ter
qualquer valor na estratosfera. Certamente o gigante tinha alta estima pela
galinha e não interesse econômico.
Quando cheguei ao desfecho da história inventei
outro final. Disse para minha filha que o gigante tinha ficado feliz de
encontrar no pé de feijão um caminho para a terra, lugar que queria muito conhecer
e que, por retribuição, havia doado a penosa ao menino.
Mensagens sub-reptícias povoam nosso dia-a-dia e
nossa cultura.
Confesso que menti para você, Ana Carolina, mas foi
por uma boa causa.
Suzano, 3 de agosto de 2012.