quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A mediocridade é cega, no mínimo míope


Karl Marx foi um dos importantes pensadores do século XIX. Estava à frente do seu tempo. Sua obra é hoje compartimentada nas áreas do conhecimento contemporâneo na filosofia, na história, na economia, na sociologia e um tanto de outras coisas. Viveu o momento da ascensão do capitalismo industrial na Europa e dedicou o melhor de seu tempo em decifrar e construir a compreensão da realidade que vivia em bases científicas.

Com sua concepção, o materialismo dialético, construiu uma detalhada descrição conceitual da forma de organização e de funcionamento do modo de produção capitalista que guarda ainda hoje mantidas as suas bases. Fundamentalmente, foram modificados os meios pelos quais se dão as relações, as interações e a exploração da força de trabalho, mas a sua essência permanece. Há quem o odeie, há quem o ame... Há também o meio termo é verdade, mas ninguém passa pelos seus escritos incólume, indiferente.

Dentre muitas de suas formulações, destaco aquela em que ele define dois estratos da estrutura social. A infra-estrutura e a superestrutura.

A infra-estrutura corresponde ao mundo cotidiano das relações sociais, econômicas e as de trabalho. A outra, a superestrutura, corresponde à regulação dessas relações.

A superestrutura, segundo ele, é a regulação formal pela constituição do Estado e de seu aparato, pelo poder executivo, pelos legisladores, pela justiça e pelas demais instituições. Neles estão impressos os códigos, as regras de como a sociedade como um todo deve se organizar.

Essa constatação parece bastante razoável, já que é fato que a sociedade assim se organiza, transferindo ao Estado parte de sua liberdade de escolhas por uma normatização que garanta o convívio dentro de um padrão de conduta, respeitados certos costumes a bem de uma dinâmica social compatível. É a Polis se organizando.

Não é essa a questão crucial. Todos, à exceção talvez apenas dos anarquistas, compreendem tal pacto social com a presença do Estado. O Problema reside em quais interesses perpassam, influenciam e ditam o conjunto de regras definidas pela tal superestrutura.

Se olharmos para a realidade brasileira, ela foi concebida, construída e comandada por muitos anos pautada por interesses daqueles que dominaram os meios de produção e do conhecimento. Foram quinhentos anos de construção de um Estado desigual com um fosso que separa os pobres da aristocracia.

É bem simples. Segundo Marx, o Estado, que é quem dita regras, representará os interesses daqueles que tem maior poder sobre ele. O Estado está em disputa.

As leis que regulam o direito à propriedade, à assistência social, se a saúde é pública ou privada, se a educação é direito de todos, se as riquezas naturais devem ser exploradas com dividendos para a sociedade ou não, são definidas pelo ESTADO e por quem detém o seu domínio.

Faço esse preâmbulo, porque ouvi de um crítico, sem fundamentação teórica inclusive, de que o governo de Marcelo Candido em Suzano não é transformador.

Se Marx estava certo e acredito, pela lógica, não será transformador um governo (parte da superestrutura), se apenas reproduzir na sua ação de regulação os interesses dos poderosos, os históricos detentores dele. Mas será transformador se buscar o reordenar, o fará em decisões por mudança nas regras do jogo que caminhem para a construção de lugares menos desiguais, aqui especificamente tratando do ordenamento jurídico do lugar.

Essa correlação de forças é que determina se a representação da sociedade busca justiça ou se corrobora com a ampliação das desigualdades. A luta de classes entre a trabalhadora e a dos capitalistas, a detentora do poder historicamente, decidirá o rumo que teremos. Isso vale para qualquer lugar.

Assisti em Suzano projetos de iniciativa do executivo –que é parte da superestrutura, é verdade- ao vislumbrar um horizonte novo, numa perspectiva no mínimo decenal que apontava para uma nova cidade, além das ações diretas que já mudaram para muito melhor a vida das pessoas que aqui vivem.

Foi apresentada a proposta de revisão do plano diretor da cidade que, entre outros avanços, pretendia enfrentar a especulação imobiliária e garantir maior acesso à terra urbana de forma que o interesse público e a redução do déficit habitacional estivessem acima dos interesses dos poucos proprietários de grandes extensões de terra sem uso efetivo, combatendo a sua valorização excessiva e irreal.

Tal iniciativa foi ostensivamente combatida pelos setores mais conservadores do legislativo e da sociedade. Para não tocarem nos seus temas de maior interesse, inconfessáveis, como a manutenção de uma ordem estabelecida que favorece vultosos lucros de especulação imobiliária, rebaixavam o debate para questões menores como exigir zoneamentos na cidade que impedissem a coexistência de atividades comerciais em áreas residenciais, algo incompatível com qualquer cidade metropolitana, para citar apenas o caso da realidade regional incluída a da nossa cidade.

Foi apresentado o projeto que iria reordenar todo o sistema de transporte da cidade garantindo acessibilidade de fato ampliando o número de linhas, garantindo a integração tarifária com o sistema de transporte metropolitano, garantindo também a possibilidade de exigir da empresa concessionária dos serviços a responsabilidade de participar de investimentos na construção de terminais regionais, construção de corredores etc.

Mais uma vez a fração reacionária, que representa os interesses empresariais incapazes de lidar com essas mudanças, fez novo levante. Mas neste episódio, nem os argumentos medíocres foram usados. Garantiram uma maioria quase silenciosa na Câmara Municipal, reprovando-o.

Foi implantada uma experiência de ampliação da calçada entre as praças João Pessoa e dos Expedicionários, trecho de maior movimento de pedestres da cidade. Pretendeu a experiência modificar a circulação de pessoas no centro da cidade para privilegiar a segurança dos pedestres, a grande maioria, em detrimento daqueles que circulam por veículos particulares, não ocasionando para estes últimos qualquer prejuízo.

A montagem da barreira que ampliava a calçada era de floreiras.

Assim, outra vez partiram para o acessório em vez de tratar do principal, que é o direito à cidade. Em vez de discutir o urbanismo, passaram a questionar o quanto custaram as tais floreiras.

Isso para não falar da incompreensão de que a Praça Cidade das Flores representava novos horizontes para o centro da cidade, como de fato se mostrou; da incompreensão do significado da Parada Tiradentes, um projeto maior reduzido ao pondo de ônibus pelos opositores; por não aceitarem que a gestão da Santa Casa, sob intervenção, primasse pelo interesse dos menos favorecidos, fato novo aqui; mas principalmente por não aceitarem e não se conformarem, as elites, com o fato de que um negro do Jardim Revista fosse o comandante que apontasse a cidade para uma nova direção.

Não foi o governo que deixou de ser transformador sob este ponto de vista. Ele esteve sempre à frente de seu tempo. Apenas, em algumas circunstâncias, a mediocridade e os interesses inconfessáveis é que imperaram. Suzano lutou e venceu muitas das batalhas, mudou para melhor em todos os seus recantos, mas as que não foram vencidas estão na conta de uma meia dúzia reacionária que não representa de fato o interesse popular.

Mas a cidade está dividida. Por isso essas eleições foram também divididas, tendo como resultado um governo eleito para os próximos quatro anos com baixa representatividade e sem projeto, a não ser o da xenofobia, do desinteresse pelas questões sociais como devem ser tratadas, pela primazia da mediocridade.

Ao contrário do que disse Marx, o espectro que ronda o porvir, pelo menos no nosso caso, não é o do comunismo, é o da mediocridade.

Por ora ela venceu a capacidade de olhar à frente de seu tempo. Mas novas trincheiras serão posicionadas.

Suzano, 29 de novembro de 2012.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

OS SIGNIFICADOS DAS PALAVRAS E DAS HISTÓRIAS

Muitos são os significados das palavras e expressões. Já foram motivos de um breve texto neste mesmo blog, chamado Sobre a Fidelidade.

Essa relação com a língua, a nossa língua portuguesa, é permanente e enriquecedora, seja porque exercitamos o que conhecemos quando lemos ou falamos, seja pelas descobertas sobre aquilo que achamos que conhecemos.

Usei muitas vezes de forma equivocada a expressão “mensagem subliminar”. Achava bonita, cheia de charme. Usava quando queria dizer que alguém quisesse ocultar algo, dissimular um debate qualquer, que quisesse usar argumentos para defender uma posição que não pudesse ser exposta. Enfim, um bom recurso, até por vezes uma muleta.

Porém, alertado por um camarada, Miguel Reis, descobri que passei vergonhas sem saber até então. Disse-me ele: - A expressão correta nesse caso é “mensagem sub-reptícia”. Corri ao dicionário e confirmei. Sub-reptício quer dizer: que se faz ou se busca com dissimulo ou de forma oculta.
  
A tal da mensagem subliminar é outra coisa e fica para outra vez.

Lembrei-me desta distinção quando lia uma história infantil para minha filha, Ana Carolina. A história era a de “João e o pé de feijão”.

Era uma tarde boa, de sol. Sentei no quintal, peguei o livro e comecei a contar. Ela parece simples e inocente. Começa assim:

João e sua mãe são muito pobres e diante do aperto a mãe pede para João levar a vaca para que fosse vendida. Certamente não havia mais nada que possuíssem. João, uma criança, leva então a vaca por uma estrada.

No caminho, João encontra um senhor que pergunta a ele o que está fazendo com aquela vaca. João diz que vai vendê-la. Então o senhor lhe faz uma oferta e propõe a troca da vaca por feijões mágicos. O garoto fica fascinado pela proposta e realiza o negócio.  Ao chegar a casa, João mostra os feijões. A mãe fica indignada, os joga pela janela e manda o menino para a cama.

No dia seguinte os feijões brotaram. Pela janela, João viu um pé de feijão gigante que tocava as nuvens. Como era um menino peralta, tratou de subir nele.

Lá em cima nas nuvens, João avista um castelo. Entra e descobre que lá habita um gigante. Não chama a atenção do menino o gigante, mas sim uma galinha. Ora, mas uma galinha? O que há de especial nela? Ah... Ela põe ovos diferentes. São de ouro.

João então percebe num determinado momento que o gigante adormeceu. Pega a galinha, uma harpa e corre em direção ao topo do pé de feijão.

Ao se aproximar do pé de feijão, deixa cair a harpa. O som emitido pela harpa acorda o gigante que, ao dar falta de sua galinha, começa a perseguir o menino.

João, com certa vantagem, vem descendo o pé de feijão, com a galinha é claro, e chega ao chão, enquanto o gigante continua descendo pelo mesmo caminho e pede para a mãe um machado e começa a cortar o caule. Cai o pé de feijão e com ele o gigante. Morrem o pé de feijão e o gigante. Este último, certamente com traumatismo craniano.

Sem nenhum arranhão, o menino e a mãe vivem felizes para sempre, com uma galinha botando ovos de ouro. Portanto, super ricos.

Essa é a história.

Ao ler a história comecei a pensar nas possíveis mensagens sub-reptícias e descobri nela uma história de sucessão de crimes.

Logo no começo, a mãe pede para uma criança cumprir uma tarefa de adulto: - Vá lá e venda a vaca, disse ela. Ora, essa não deveria ser uma tarefa atribuída a uma criança, pesa ainda mais numa história infantil. Como diz a música do grupo Palavra Cantada “criança não trabalha, criança dá trabalho”. Já começa a história com um crime, o do trabalho infantil.

Depois, o senhor troca a vaca por feijões supostamente mágicos. A história não diz que ele tinha outros e que os havia testado, fazendo assim o senhor da história não passar de um estelionatário. Aliás, acredito que a magia dos feijões está de fato na noite mal dormida do menino que rezou pedindo muito para não ter feito uma burrada.

Por fim, vem a situação do gigante. Está ele sossegado em seu castelo. O menino João rouba sua galinha que põe ovos de ouro e depois, ao derrubar o pé de feijão, fere de morte o gigante. Trata-se praticamente de um crime de latrocínio. E o mais curioso é que ovos de ouro não devem ter qualquer valor na estratosfera. Certamente o gigante tinha alta estima pela galinha e não interesse econômico.

Quando cheguei ao desfecho da história inventei outro final. Disse para minha filha que o gigante tinha ficado feliz de encontrar no pé de feijão um caminho para a terra, lugar que queria muito conhecer e que, por retribuição, havia doado a penosa ao menino.

Mensagens sub-reptícias povoam nosso dia-a-dia e nossa cultura.

Confesso que menti para você, Ana Carolina, mas foi por uma boa causa.

Suzano, 3 de agosto de 2012.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sobre a Fidelidade

Palavra rica como tantas da língua portuguesa, a fidelidade. Habitualmente a usamos para um de seus significados, quando se trata de uma relação amorosa. Um dos que forma o par a reivindica, quer nela encontrar a expressão, a demonstração de que o (a) outro (a) representa aquilo que idealiza. É, portanto, um jogo de expectativas.

Porém, o termo fidelidade possui mais definições e aplicações.

Na farmácia, ao alcançar o balcão logo vem a pergunta: “O senhor já possui o nosso cartão de fidelidade?”. O cartão, segundo eles abre um universo maravilhoso de descontos, bom atendimento, serviços especiais e milhares de pontos a serem trocados por coisas pouco úteis em troca da fidelidade no consumo. E essa relação é curiosa porque alguns de fato criam tal vínculo. Mas é só consumo, são coisas.

Nas manifestações artísticas também é muito empregada. Uma obra, seja em que linguagem for, produzida a partir de outra, pode ou não guardar fidelidade à primeira. Quando assisti ao filme Vidas Secas fiquei impressionado com a sua proximidade da obra literária escrita por Graciliano Ramos.  Não apenas pelos diálogos, que de fato eram poucos, mas pela riqueza de detalhes na produção que traduzia muito bem pelas imagens a rusticidade da vida no semiárido descrita no livro.

Mas prefiro tratar aqui da que significa coerência, precisão, aderência, responsabilidade com aquilo que se pensa.

Na vida em sociedade somos identificados e nos identificamos com aqueles que supomos terem visão de mundo próxima daquela que constituímos. É assim que as aproximações e distanciamentos se dão. E esse processo não é imediato. São construídos ao longo do tempo, tanto os distanciamentos quanto as aproximações.

Vale nas nossas relações mais próximas, assim como nas de trabalho, na política...

Porém, neste último caso, o da política, onde talvez a subjetividade subjacente aja mais, é onde estão também grandes surpresas.

Cá no meu microcosmo assisto a picadas da mosca azul, tentativas de puxada de tapete, estelionatos eleitoreiros regados a muita, mas muita mediocridade. É impossível cobrar coerência, consistência, posição, já que não há pressupostos, princípios, ética para os que ao outro lado foram, ou que talvez de lá nunca saíram de fato.

Há, portanto, tão somente uma fidelidade a sede de alcançar uma posição. Pensar em o que fazer com ela é mero detalhe, ficará para outro momento. Oportunistas circunstanciais embriagados por um frenesi acéfalo. Por isso, são por natureza natimortos esses projetos.

Em uma música, intitulada Fidelidade Partidária, os autores Wilson Moreira e Nei Lopes descrevem o que no seu entendimento é o comportamento fiel ao modo de vida de sua comunidade, quando perguntados pela tia-avó centenária, Rosária, sobre o que é fidelidade partidária.

Lembro que neste caso, a expressão partidária dá significado para a comunidade em que se está inserido e deriva de “partideiro”, denominação dada àquele que interpreta e que participa das rodas de samba, que tem raiz.

Partido tem como raiz parte. Parte pode ser uma fração de algo, pode ser uma causa, pode designar um lugar. Mas o melhor de seus significados neste contexto é: lado.

Tenho lado, faço sua defesa e o declaro. Às vezes ouço alguns bradarem que estão do mesmo lado, mas curiosamente, desses alguns, ouço a voz fraca, difícil de ouvir. Talvez porque não a do corpo, mas a voz da alma venha lá de longe, do outro lado.

Palavra rica como tantas da língua portuguesa, a fidelidade, segue mal tratada.

Ouçam a música com letra no link abaixo.
Suzano, 24 de maio de 2012

sábado, 7 de abril de 2012

Cultura e a construção de um mundo diverso.




O crescimento vertiginoso das visões de ultra-direita em todo o mundo é um fato. Elas se mostram de diversas formas. Pelas impressões dadas em frequentes manifestações individuais, assim como pelo fortalecimento de organizações que defendem diretamente seus posicionamentos, implicando na forma de condução do Estado, sobre o mercado ou até sobre o comportamento das pessoas.
Estão pautados principalmente pela intolerância às diferenças no padrão de comportamento que se manifestam nas orientações sexuais, nas opções políticas, nas opções religiosas, nos traços étnicos e culturais diferentes dos seus e principalmente na defesa da priorização dos direitos individuais em detrimento dos coletivos.
Propagam-se de forma veloz, apoiadas nos recursos trazidos pela revolução tecnológica que vivemos nos últimos anos, pois, se é verdade que eles tem garantido maior troca de informações e portanto, o aprimoramento do conhecimento sobre nossas diferenças, contraditoriamente tem ecoado, espantosamente por meio de jovens, pensamentos xenófobos, racistas, islamofóbicos, homofóbicos e de ataque aos direitos humanos.
Os Estados, para alguns, devem criminalizar mecanismos como os movimentos sociais, devem desonerar o sistema produtivo a partir da redução dos direitos dos trabalhadores, devem afrouxar o controle sobre o mercado imobiliário favorecendo a especulação, devem levar ao mínimo a regulação sobre o mercado produtivo e financeiro, adotar medidas desequilibradas nas relações comerciais internacionais e ter largo poder de polícia e bélico para assegurar a devida tranquilidade nessa ordem estabelecida, assim como para seu aprofundamento.
São muitos os exemplos de fatos recentes preocupantes, para além dos históricos já conhecidos.
No ano de 2011, A Bolívia deveria ser invadida. A saída negociada em torno do impasse da questão energética era demonstração de fraqueza. Tantos, a qualquer tempo declaram publicamente nas redes sociais sua aversão aos nordestinos, aos negros, aos homossexuais. Muitos atacam sistematicamente programas sociais brasileiros que evitam milhões de mortes na miséria, que emancipam outros milhões e que garantem o acesso à formação acadêmica, aos bens de consumo e a terra, sob a magnífica lógica contrária do “ensinar a pescar em vez de dar o peixe”, como se ele, o “peixe” fosse tão fácil de se agarrar.
Foram mortos quase uma centena de jovens na Noruega, em 23 de julho de 2011. Três crianças e um adulto judeus mortos na França por neonazistas em 19 de março de 2012. Avançaram organizações como o Tea Party, nos Estados Unidos e governos na Europa que buscam reproduzir um modelo em que o aparato estatal deve seguir a extensa e sofisticada cartilha dos interesses do GRANDE capital.
Nesse contexto de intolerância, os atos de violência como os citados esperam somente a oportunidade. Eles representam a ponta do iceberg de pensamentos e posicionamentos inconfessáveis que alimentam o ódio que vem avançando na forma de um traço comportamental e cultural do pensamento hegemônico vigente.
Naturalmente, essa sofisticada engenharia não está, e ainda bem, imune à reação e resistência. Assim como o mundo assiste ao avanço da extrema-direita, houve manifestações contrárias certas vezes mesmo violentas, como a que observamos há algum tempo na Inglaterra, sobre a qual caberia um debate específico, já que o estopim, mais do que um fato pontual da morte de uma pessoa, foi na verdade uma reação a crescente atmosfera de cerceamento, de intolerância e da constante redução dos direitos, entre outros à assistência social.
Porém, as mais importantes e que devem ser incentivadas, são as iniciativas de resistência que disputam na sociedade a compreensão de que a diversidade, respeitada e estimulada, é a chave do processo civilizatório. Compreender que é normal ser diferente se faz necessário e a principal forma de expressão dessa diversidade se dá por condições a serem criadas e incentivadas de se deparar com a diferença. O mecanismo mais eficiente para essa construção é o acesso à cultura. Mas porque também não dizer, das culturas.
Nos últimos anos, o conceito governamental de cultura no Brasil ampliou seu leque para além da visão tradicional que considerava apenas algumas áreas das artes, notadamente as classificadas como eruditas, como formas de expressão cultural. Hoje, compreende-se como cultura uma vasta gama de expressões e de costumes, dentre tantas outras coisas. Elas se mantêm resistentes a um padrão de comportamento trazido e incentivado no processo de globalização que ganha cada vez mais musculatura, o de consumo.
Este embate, um conflito permanente e desigual, existe em qualquer lugar. É disputado em trincheiras igualmente desiguais, tanto que por muitas vezes o poderio do capital compra, incorpora às suas estratégias de negócio, expressões e manifestações culturais. Transformam-nas em produtos, e como qualquer outro produto, embutido neles a mais-valia. São capazes de comprar, transformar a capacidade de criação em um objeto de mercado. Enfim, se apodera dos meios de produção do outro, neste caso dos fazedores de cultura, do povo, tamanha a sua sofisticação.
Porém, como disse certa vez um grande estudioso do processo de globalização, o geógrafo Milton Santos, da mesma forma que existe uma intensa pressão do comportamento hegemônico sobre os lugares e sobre as culturas locais, há também nestes lugares uma resistência que pretende algo muito simples, mas muito valioso: a busca do direito à identidade.
Assim, entre vitórias e derrotas, essa disputa segue seu curso.
Quanto ao papel do Estado, igualmente em disputa, do lado de cá, entendo que ele, como síntese da sociedade, deve incorporar a diversidade como algo a ser preservado, estimulado e difundido.
Conceituar a cultura assim, de forma ampla, cria as condições para que se possa idealizar e implantar políticas que explorem cada vez mais a garantia do acesso, da livre manifestação cultural e da compreensão de um mundo diverso como de fato é.
A crescente oportunidade de se deparar com a diferença, compreendê-la e aprender com ela, têm um efeito que colabora com o avanço da humanidade. Ampliar esse debate é fundamental.
Não apenas a tolerância, mas o efetivo respeito e o apreço pelo diferente representam a mais eficiente resposta. Certamente está aí um dos caminhos para a construção da justiça, da fraternidade e da paz no mundo, ainda que sob tensão permanente.

20 de março de 2012, em Suzano.

Zé Candido



No início dos anos 90, cheguei à cidade de Suzano pela primeira vez. Mas vim de fato para conhecer uma grande família grande. O pai, a mãe e seis dos seus sete filhos. Um dos filhos, que já havia conhecido no interior de São Paulo, foi quem me levou aos demais.
Eles moravam numa casa no Jardim Revista, bairro da periferia desta cidade. Era uma casa grande e simples construída em um terreno acidentado e numa rua sem pavimentação. Do topo do morro, no Revista, era possível ver do lado de cá, na margem direita do Tietê, o “buracão”, uma área inundada da várzea e na outra margem à diante, o centro da cidade. Uma bela vista.A casa tinha as suas portas constantemente abertas, pelas quais passavam livremente os seus amigos e vizinhos.As crianças (moradoras ou não) brincavam na sala. A mãe, Dona Laura, eu vi preparando uma refeição, interrompida diversas vezes por amigos e vizinhos que chegavam. O pai, José, amistoso e gentil, entrava em casa, falava com quem lá estava e saía rapidamente. Tinha mil coisas a fazer.José Candido, era ele.
Militante do PT e vereador. O único a se opor ao modelo e ao poder constituído na cidade que mantinha suas mazelas há décadas para a manutenção do enriquecimento de poucos, de forma que o desejo da grande maioria excluída era sufocado.Seguiu como vereador por quase todo o tempo como a única voz a defendê-los, os sufocados.Assim como a grande maioria excluída era sufocada, tentavam sufocá-lo. Não abriu mão de sua posição.
José Candido manteve uma vida modesta e criou seus filhos com a mesma dignidade que qualquer outro trabalhador conseguiria com seus proventos. Lutava pela garantia de direitos às pessoas, na mesma medida em que essas garantias deveriam ser conquistadas para os seus próprios filhos. Não queria mais para os seus.
Ao contrário de tantas pessoas, ele colocou sua vida privada a serviço do público.
Esse jeito do Zé Candido de encarar a vida, de qual era o seu papel na sociedade me chamou muito a atenção e é certamente o que fez com que muitas pessoas o respeitassem e tantas outras o seguissem. Foi isso que observei, constatei e posso testemunhar como algo verdadeiro.
De lá para cá, seus frutos continuaram a semear o bem comum. Por isso Suzano avançou tanto com o Marcelo, sem fisiologismos, sem a sobreposição de interesses pessoais sobre os coletivos.
Hoje completam sete dias da morte de José Candido.Não podemos mais falar com ele, mas podemos visitar sua história e continuar a encontrar nela respostas sobre o que fazer.
No dicionário, cândido quer dizer: adj. 1 Alvo, imaculado. 2 fig. Puro, ingênuo, inocente. É assim que o vejo e o seu legado.19 de fevereiro de 2012, em Suzano/SP

CARTA AOS MEUS AMIGOS




Dia desses me peguei a pensar sobre o tempo, como a gente o sente. A pensar como passa ligeiro quando nos deparamos com uma tarefa quotidiana, ao constatar o quanto uma criança cresce rápido, assim como para viver a própria vida. A pensar sobre como nos escapa rapidamente. Em como parece com a areia fina e seca que foge das mãos por entre os dedos, por mais que a gente se esforce em segurá-la. Areia de ampulheta. Aquele tempo cantado pelo DJ Thaíde “que não volta nunca mais”.
Pensei no futuro que vem chegando, na precisão do relógio. O novo, o incerto e incógnito. A vanguarda! Ele compreende as coisas do mundo com frescor, com a leitura moderna e singular, capaz de explicar e solucionar tudo.
Já o passado sabido, que também carrega seus mistérios, por outro lado tem a capacidade de recapitular. Fruto do acúmulo histórico narra, faz a crítica, entende outro tanto de coisas. É a memória de tudo e por isso é capaz até de antever para onde vai o novo, já que muitas vezes é o velho-novo, o eterno retorno de Nietzsche.
A construção lógica do tempo estabelece uma referência sobre aquilo que vem e o que passa. Na sua métrica cartesiana pretende bestamente pôr algum controle sobre aquilo que não nos pertence. Mas pelo mesmo raciocínio lógico e, portanto humano, ouvi de um grande amigo, que a gente é que passa por ele (o tempo). Está aí parte da resposta. Tudo não é nada além de uma questão de escala. De fato a gente é que passa por ele!
Isso permite compreender a frágil presença da existência, pelo menos a do indivíduo. É como o velho pescador de Hemingway, em “O Velho e o Mar”, que se perde em meio à imensidão do oceano numa épica batalha contra um peixe e que dela resulta um sentimento de força, de grandeza, mas que morrerá junto com o velho.
Individualmente, viemos do nada e para ele vamos. Pode demorar algum tempo, mas vamos. Como me disse um companheiro, à luz da definição que parte de um filósofo, cujo nome não me recordo, de que a “existência é algo entre dois nadas”.
Apesar disso tudo, somos instintivamente impulsionados a fazer, a fazer sempre, enquanto aquele mesmo tempo permita. É, pois, da natureza humana. Em erros e acertos, construímos algo que efetivamente sabe-se lá onde vai dar. A gente faz coisas, constrói edifícios, o nosso mundo, um punhado de idéias e conceitos, promove mudanças.
Tentamos a todo custo nos tornar imortais ou imortalizar algo. Buscamos acreditar em algo além da vida por meio da fé, projetamos os genes à diante, tentamos fazer e marcar a história. Usamos uma série de artifícios numa engenhosa tentativa de contra-atacar e de contrariar o rigoroso e impassível tempo.
Há poucos dias perdemos um grande companheiro. Juarez Araújo Braga, o professor Juarez, ou simplesmente o Juju, como também era conhecido. Falo dele, mas tomo a liberdade de citá-lo como exemplo de tantos outros de grande valor também nos deixaram.
Ele representava a história viva de um período tão importante, mas que já vem sendo de forma sistemática colocado de canto, num canto que tende ao esquecimento. Foi militante do Partido Comunista, o partidão, numa época em que era muito mais difícil assumir uma postura à esquerda.
Filósofo, formado tardiamente para os padrões comuns escrevia muito, assim como pensava. Com mais de setenta anos, quando o conheci, não negava, ao contrário, nos convocava a uma mesa de bar, local onde “resolvemos todos os problemas do mundo”, com muita disposição, alegria e boa conversa.
Ficará assim na minha memória, enquanto ela existir.
Temos de contar a nossa história, daqueles que estiveram e que estão conosco. Faço e farei isso sempre. Celebrar a vida acima de tudo entendendo a sua grandeza e fragilidade, especialmente daqueles que me cercam, de forma que a gente possa sempre lembrar, reconhecer e cuidar uns dos outros.
O tempo é o que nos resta.

Outubro de 2010
Opiniões da Aninha/Carol em março de 2009. ...Fgghffdddffghfgteddfffdsmkikllpo0o9iopoiixxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxx xxxxxxcrfrfrfrfru6i,o,o9,umyntbrv3degggggggggggggggggggggGGGGGGG~~~M ,   I-NUIN INNININNNNUUUNUUUUUUUUUUUUU TGFO NNNNUU-IK NNNNI I NNI-IPLK-B
Belo texto...

Começa hoje...

Este blog foi criado para registrar pensamentos. Se coerentes ou não, devem expressar o pensamento sobre coisas em seu tempo, ao vivo.