domingo, 16 de agosto de 2020

FILHA DO MEDO, A RAIVA É MÃE DA COVARDIA*

Em tempos de pandemia, guerras, escassez e crises, até mesmo no campo das disputas de pensamento e outras tensões é comum a responsabilização sobre o estado de coisas apontar para o outro. O preconceito racial, de gênero, da sexualidade são exemplos. Destaque aqui para a xenofobia.

Ao tratar como inferior ou como fonte de problemas o outro, o estrangeiro, a xenofobia faz com que quem a pratica fique circunscrito no seu território físico, o lugar e psíquico, o sujeito. Não há espaço para a troca porque ela não faz sentido.

A sanha da simplificação deve ser realmente tentadora por poder apontar para o outro e nele dar causa a todas as mazelas. Deve ser mesmo tentadora porque simples, porque explicativa de que o outro é o problema, que este problema não reside na própria pessoa como parte, mas só nele, o outro.

O fato é que é impossível encontrar soluções para os dramas que enfrentamos sem pensar. É impossível pensar sem se deparar com a diferença e nela construir o entendimento das coisas. O indivíduo depende muito do outro para aprender. Isso também vale para as diferentes origens.

Não por acaso, inúmeras boas experiências educacionais têm como base garantir que no ambiente de aprendizagem possam conviver pessoas de diferentes origens, etnias, classes sociais, credos, acentos, gostos, desejos. 

Em que pese não se deva apostar muito em grandes mudanças de comportamento, já que negros vão continuar tomando mais “geral” o que qualquer outro branco, mulheres não vão ainda caminhar sob segurança e em paz pelas ruas sem serem insistentemente assediadas e a sede do capitalista nunca cessar em explorar ao limite o trabalhador, será no acúmulo histórico dos enfrentamentos que os avanços se consolidarão.

Mas o fato é que se todos que sofrem algum tipo de segregação a enfrentarem de pronto, eles se calarão mais rápido e quem sabe as estruturas que os mantém possam se fragilizar com o tempo.

São muitas as organizações da sociedade que pautam e adotam medidas de monitoramento e enfrentamento das diversas formas de preconceito, de segregação e podem contar com a nossa energia e engajamento em exercitar ações de enfrentamento às mais diversas formas de expressão reacionária e do preconceito. Enfrentá-los é preciso.

A África, continente tão subjugado, tem em vários de seus povos tecnologias como ubuntu** e xenofilia, que, antes de cultuarem a paz como algo idealizado, promovem o entendimento na diferença, no conflito. Elas são uma chave possível. Mas essa é outra história para uma outra conversa.

E sobre a xenofobia? Sobre ela, Frei Betto dá uma dica:

 - A cabeça pensa onde os pés pisam***.

E se os pés pisaram em muitos lugares a cabeça pode pensar mais...

O resto é preconceito.


*Vale ouvir As Caravanas de Chico Buarque

https://www.youtube.com/watch?v=6TtjniGQqAc

** As tecnologias aqui mencionadas são métodos, conhecimentos e técnicas aplicadas e não a tecnologia computacional.

*** A frase também é atribuída a Paulo Freire e a Leonardo Boff. Seja qual deles for o autor, a expressão os representa bem.