domingo, 16 de agosto de 2020

FILHA DO MEDO, A RAIVA É MÃE DA COVARDIA*

Em tempos de pandemia, guerras, escassez e crises, até mesmo no campo das disputas de pensamento e outras tensões é comum a responsabilização sobre o estado de coisas apontar para o outro. O preconceito racial, de gênero, da sexualidade são exemplos. Destaque aqui para a xenofobia.

Ao tratar como inferior ou como fonte de problemas o outro, o estrangeiro, a xenofobia faz com que quem a pratica fique circunscrito no seu território físico, o lugar e psíquico, o sujeito. Não há espaço para a troca porque ela não faz sentido.

A sanha da simplificação deve ser realmente tentadora por poder apontar para o outro e nele dar causa a todas as mazelas. Deve ser mesmo tentadora porque simples, porque explicativa de que o outro é o problema, que este problema não reside na própria pessoa como parte, mas só nele, o outro.

O fato é que é impossível encontrar soluções para os dramas que enfrentamos sem pensar. É impossível pensar sem se deparar com a diferença e nela construir o entendimento das coisas. O indivíduo depende muito do outro para aprender. Isso também vale para as diferentes origens.

Não por acaso, inúmeras boas experiências educacionais têm como base garantir que no ambiente de aprendizagem possam conviver pessoas de diferentes origens, etnias, classes sociais, credos, acentos, gostos, desejos. 

Em que pese não se deva apostar muito em grandes mudanças de comportamento, já que negros vão continuar tomando mais “geral” o que qualquer outro branco, mulheres não vão ainda caminhar sob segurança e em paz pelas ruas sem serem insistentemente assediadas e a sede do capitalista nunca cessar em explorar ao limite o trabalhador, será no acúmulo histórico dos enfrentamentos que os avanços se consolidarão.

Mas o fato é que se todos que sofrem algum tipo de segregação a enfrentarem de pronto, eles se calarão mais rápido e quem sabe as estruturas que os mantém possam se fragilizar com o tempo.

São muitas as organizações da sociedade que pautam e adotam medidas de monitoramento e enfrentamento das diversas formas de preconceito, de segregação e podem contar com a nossa energia e engajamento em exercitar ações de enfrentamento às mais diversas formas de expressão reacionária e do preconceito. Enfrentá-los é preciso.

A África, continente tão subjugado, tem em vários de seus povos tecnologias como ubuntu** e xenofilia, que, antes de cultuarem a paz como algo idealizado, promovem o entendimento na diferença, no conflito. Elas são uma chave possível. Mas essa é outra história para uma outra conversa.

E sobre a xenofobia? Sobre ela, Frei Betto dá uma dica:

 - A cabeça pensa onde os pés pisam***.

E se os pés pisaram em muitos lugares a cabeça pode pensar mais...

O resto é preconceito.


*Vale ouvir As Caravanas de Chico Buarque

https://www.youtube.com/watch?v=6TtjniGQqAc

** As tecnologias aqui mencionadas são métodos, conhecimentos e técnicas aplicadas e não a tecnologia computacional.

*** A frase também é atribuída a Paulo Freire e a Leonardo Boff. Seja qual deles for o autor, a expressão os representa bem.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Do Apartheid Social ao convívio cada vez menos desigual

Nos anos 80 o menino tinha uma vida modesta. Digna, graças ao esforço única e exclusivamente de sua mãe, mas cheia de privações. Ele não as enxergava porque nada além existia. O mundo tinha apenas algumas quadras...
Vivia num bairro da periferia, lá tinha suas relações e não extrapolava muito mais de seu território. Era assim para ele e para os igualmente ou mais pobres e pronto.
No finalzinho dos anos 80 e começo dos 90, já adolescente, consegue milagrosamente trabalhar, porque trabalho era pouco comum para jovens e maiores de 40 anos. Aquele território do menino, antes reduzido, se amplia, já que é Office Boy. Passa a conhecer com profundidade o centro de São Paulo, a imponente Avenida Paulista, um pedacinho dos Jardins, o Centro Cultural da Vergueiro, a Biblioteca Mario de Andrade, o Mappin na praça Ramos de Azevedo.
Tudo tão perto agora, mas ainda tão distante. O Mappin, loja de departamentos enorme, tinha de tudo um pouco e aquela gentarada, de tudo, quase nada. Eram como os cachorros que olham as máquinas de assar frango nas padarias. As máquinas ainda conhecidas como televisões de cachorro.
O jovem recebia salário baixo e como a inflação era assustadoramente alta, deixou de fazer o cursinho. Chegava a receber num mês mais de um milhão, que nada valia.
O plano Real veio e estabilizou a economia logo no primeiro ano de sua criação, 1994. Nos oito anos que sucederam, o monstro da inflação desapareceu, mas só ele. O monstro da desigualdade permaneceu o mesmo. O nordeste continuava sem acesso à água, à eletricidade, à renda... O nosso personagem (o jovem), em São Paulo, continuava com salário bem baixinho.
Em uma década nada de pobre sair da sua. Nada de dividirem o bolo, o bolo era da elite brasileira, de terninho e gravata azul. O jovenzinho se perguntava: - Ué, se a inflação que corroía os salários acabou, porque eles continuavam tão pequenos? Por quê o Mappin continuava tendo de tudo um pouco e aquela gente, de tudo, tão pouco?
Os anos 2000 vieram e o torneiro mecânico ridicularizado pelas elites, tratado como um ignorante, alguém que se devesse envergonhar, vira presidente.
Daí em diante, a realidade de tantos muda. Ter carro e outros bens de consumo passa a ser realidade em tão pouco tempo.
Depois do torneiro mecânico vem a mulher presidente. Fazer faculdade, comprar a casa, poder cultivar sua terra, viajar de avião, estudar no exterior, que antes era praticamente impossível, ali acontecia.
O nosso personagem já adulto, nesta fase vê tanta coisa mudar. Se pergunta como é que não fizeram isso antes. Fica sem resposta. A única resposta que teve é aquela que a contraposição entre o passado e o presente mostrou. O passado tão árido deve continuar assim, no passado.



“Pata pata is the name of the dance.
We do down Joanesburg way”


A música é Pata Pata, de Miriam Makeba, cantora sul africana. Saiu da África do Sul por conta do regime do Apartheid e depois dos Estados Unidos por se associar aos Panteras Negras. Viveu em Guiné, Belgica, reconhecida por organismos internacionais como importante ativista dos movimentos emancipatórios africanos e dos direitos humanos, morreu em 2008.


9 de outubro de 2014

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Mal a Quem?

“Eu não posso causar mal nenhum
A não ser a mim mesmo,
a não ser a mim...”


A canção revela uma enorme contradição sobre essa idéia de fazer o mal, da capacidade de produzi-lo, de reproduzi-lo, apesar de que talvez Cazuza e Lobão a tenham escrito como um lamento de alguém que está cansado de um tanto de coisas.

Diante de tanta iniqüidade no mundo, fazer o mal a alguém ou no atacado a um monte de gente parece óbvio. São muitos os exemplos e basta ver ou ler o noticiário da mídia sangrenta, ficar atento ao que se diz ou ao que se escreve nestes meios e nas redes sociais para constatar que a maldade humana é capaz sim de se projetar.

Alguns filósofos entendem que o Homem é bom, outros entendem o contrário. Depende do contexto em que viveram, já que a filosofia deriva disso, ou de serem eles por natureza mal ou bem humorados, conforme o caso.

Um tempero a mais nisso está em o quanto é relativo o entendimento sobre o mesmo objeto, o mesmo assunto, quando comparado com as visões das pessoas. E como estamos falando de filósofos, um deles parou de perseguir posições absolutas e disse que “o homem é a medida de todas as coisas”. Seu nome era Protágoras. Um dos gregos.

Se o homem é a medida de todas as coisas, logo podemos nos libertar da engenhosa, cansativa e impossível construção de elaborar uma única forma de pensar para então compreender, ou pelo menos tentar entender, que existe um punhado de formas de pensar. É mais complexo, mas é bem melhor assim. Mais rico e mais interessante.

Portanto, não há problema em pensar diferente. O problema reside de fato em não pensar. Deixar de pensar, e alguns fazem disso um exercício diário, não permite refletir sobre si, sobre o outro, sobre o mundo. Mesmo a posição mais reacionária exige argumento. Se ao menos tiver argumento há o que se debater, há conversa. Se não, se esgota a desejada conversa, ela passa a ser impossível.

É como olhar para uma janela que pode ter a dimensão de todo o cômodo ou ter poucos centímetros de amplitude. Olhar o mundo pelos olhos de alguém pode ser fantástico ou uma grande decepção. É preferível um lugar com janelas que ocupam todo o espaço do que um com paredes retas, cartesianas com alegorias que nos distraem. O mundo é plural e deve ser assim entendido. Mas o é em uma pluralidade sã.

Procuramos olhar o mundo pelos próprios olhos, mas quando o exercício de fazê-lo é pelos olhos de alguém, queremos algo maior.

Porém o bombardeio de bestialidades está à mostra na time line da rede social. Bestialidades reproduzidas com pouca elaboração de quem as faz e nenhuma de quem as reproduz.

Disseram nestes dias que um médico cubano não se comporta como um médico, ou algo parecido. Mas médico é algo? Médico se comporta como alguém? Acho que os médicos são “alguns” e seus comportamentos também devem ser “alguns”. Definitivamente, não importa se são cubanos, brasileiros, canadenses, italianos, marroquinos.

Reproduzem a imagem do Ministro do Supremo Tribunal Federal, o Joaquim Barbosa, como a salvação do Brasil, sem compreender que o judiciário é também, como o executivo e o legislativo, uma expressão da sociedade e, por isso, cheio de contradições.

A questão central não é “achar isso ou aquilo”, mas sim “qual o argumento disso ou daquilo”. As pessoas se perguntam sobre o que dizem antes de dizer ou se perguntam antes de compartilhar?

Dizer algo é como contar histórias. Para contá-las devemos incorporá-las, compreender sua dimensão, seu tempo, quem as criou e sua personalidade e, ao recontá-las, trazer aquilo que acreditamos. Se não se importam em compreender, logo não se importam com o que significa contar histórias!

Por isso a contradição da música. Posso causar mal, muito mal, para além de mim mesmo, se reproduzo coisas sem algo fundamental ao ser humano: o pensar.



30 de agosto de 2013.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

EVITEMOS AVATARES

A tentativa de tornar virtual a vida não é algo de hoje. Muitos de nós, ou todos nós, exercitamos diariamente experimentar relações com pessoas e coisas de um jeito, no mínimo, diferente da usual.

Há muito tempo os videogames fazem isso. Tem gente que perde tempo precioso diante deles e acha que a vida reside neles, sem olhar a quem, do lado. Jogam o jogo. Crianças tudo bem... Elas são pequenas o suficiente para se ludibriarem ainda com isso.

Depois dos videogames, outras formas virtuais vieram. Os “tamagotchis” também surgiram. Eram os “amigos virtuais”. Tratava-se de programas que simulavam bebês, que precisavam de atenção (comer, brincar, estudar e outras coisas), se assistidos viravam um passarinho, se não, um morcego.

Os e-mails são a versão virtual das cartas, com a vantagem de serem instantâneos. Se quero enviar uma carta mando na hora que quero, mas o destinatário, por outro lado a lê quando quiser.

Digo isso, porque essa virtualização das coisas do cotidiano atingiram um patamar de sofisticação tamanho que não se trata mais de se criar uma interface, ou seja, até aqui estamos falando de mecanismos, de ferramentas que nos colocam como somos no mundo não real.

Ocorre que as versões mais atuais do mundo virtual, como esse feicebuque (parafraseando Tom Zé) cria algo diferente. Cria para além de uma interface virtual, uma personalidade virtual. O que chamo aqui de avatares nas redes sociais.

Quando a gente se encobre por detrás desse pano, a gente cria (e me incluo nisso) uma personalidade que dialoga pouco com a nossa das ruas, do trabalho, enfim, das relações sociais reais.

Assim, o meu eu virtual é diferente do meu eu real. É um tanto cômodo, no teclado atacar alguém. Me escondo em meu avatar. Depois, quando encontro a pessoa na rua, conversam as pessoas e não seus avatares. Aí são tapas nas costas e um jeito mais lento, mas também mais cadenciado de realizar essa disputa.

Temos amigos no feicebuque, que ao encontrar na rua não os vemos. Por que não os conhecemos na vida. Ter 1.000 amigos dá status, mas os conheço de fato? Por que interessa romper a barreira dos 1.000 ou 2.000 amigos? E preencher o limite máximo então, os 5.000 amigos?

Ser amigo dá trabalho. Impossível ter 5.000 amigos. Acho que uns 100 já ultrapassam a nossa capacidade de exercitar a amizade.

Outra questão é a profundidade das coisas nas redes sociais. São capazes de reproduzir com força pensamentos reacionários e com fraqueza o mais avançado, o democrático, o razoável. Reforçam visões absolutas e definitivas e enfraquecem aquelas que relativizam, que mais perguntam do que respondem.

Nesse sentido, aquilo que lemos tem uma profundidade impressionantemente rasa, comparada à capacidade de acumular informações da internet. As redes privilegiam a informação presta curta, rápida e, portanto, rasa.

Fotos bonitas com frases de efeito afetam mais. Textos longos, mais profundos, com mais de uma página, afetam muito menos. 

Mais uma: Na música ruim, o funkeiro diz: “tira foto no espelho pra postar no ‘feicebuque’”. A gente escolhe a melhor foto, o melhor ângulo, que nunca qualquer pessoa encontrará ao vivo. Portanto, além de mais agressivos e mais corajosos do que nós, os nossos avatares são
mais bonitos que nós.

Mas é possível que as coisas aconteçam no virtual? Acho que não. É no mundo real que as coisas acontecem. E no mundo real somos piores, mas é nele que as coisas acontecem, é nele que dialogamos.

Há quem seja mais ativo nas relações virtuais. É comum numa mesa de restaurante pessoas sentarem e não conversarem muito. Conversam com outras pessoas que não estão lá fisicamente. De novo a mesa real perde para a mesa virtual num lugar virtual.

É um contra-senso que meu avatar me supere, que eu seja um morto-vivo na vida e alguém “super legal” no virtual. Essa personalidade virtual que projetamos, e que representa o exagero ou a maquiagem do que somos não pode ser reconhecida como nós mesmos. Ao contrário. Que virem os nossos avatares os mortos-vivos e que sejamos vivos na vida.

O meu, a partir de hoje, passa a ser um desses mortos-vivos. Diálogos agora ou ao vivo, ou por correio eletrônico, ou por telefone...


Matemos nossas personalidades virtuais e se isso não for possível, evitemos os avatares.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

GRANDES TORNOZELOS E CALCANHARES MUDARIAM O DESTINO DE AQUILES


O Cânone Ocidental, escrito por Harold Bloom, traz um apanhado da literatura e dos pensadores que redundam naquilo que pode ser um esforço, com muito custo é verdade, da síntese do pensamento e da cultura ocidental.

Lê-lo é um bom exercício para tentar compreender uma parte dos fundamentos que estão nos clássicos, que ao serem mais visitados, vão dar uma maior compreensão de onde estamos e de nossas contradições. Digo isso porque devo a eles mais disciplina e visitas.

Aquiles e outros mais são o arquétipo da nossa civilização. Ele é uma figura mítica. Antes fosse mística, por que aí poderíamos analisar a sua concretude, já que teria existido de fato. Mas Homero é quem o fez, com todas as controvérsias, em seus épicos escritos.

De qualquer forma, sendo mítica essa figura, ela foi produzida e ainda é reproduzida pela sociedade contemporânea a seu interesse. Um herói, invencível com valores morais e éticos, “tranquilo e infalível como Bruce Lee”, o arquétipo.

Por que é que precisamos disso? Que raio de pensamento é esse que temos de construir uma idéia de invencibilidade e que nela esteja sempre presente a imagem de heróis e que estes, apesar de criados por nós, nunca estão na gente. É como quando o super-homem, para salvar a reles mortal Lois Lane, fez o mundo girar ao contrário e voltar o tempo, salvando-a.

Acho que talvez porque é mais fácil sempre ser tributário1 de alguém ou de alguns. Por isso muita gente se sente tão bem consumindo coisas fúteis, cheias de significação fútil. Talvez também porque a gente carrega o fardo de um cristianismo católico-caótico, protestante e pentecostal poderoso, hierárquico, anacrônico e mercantilista que cerceia a diversificação da forma de se viver em nosso planeta, mas que nos dá um suposto alicerce, que vai além do significado real de Cristo. Talvez também porque a gente se sinta mais confortável em ser representado por alguém em vez de assumir o protagonismo possível.

É fato que vivemos de nossa suposta fortaleza, mas também acumulamos nossas reais fraquezas. Aquiles é um arquétipo, mas se tivesse um pouco mais de tornozelos, tornozelões e calcanhares de carne e osso, não teria sucumbido, ainda mais por causa de uma flechinha envenenada.

No fundo é um herói bem mequetrefe esse..

24 de abril, às 22:28

1 Diz-se que é tributário, na geografia, um rio que deságua em um outro ou no mar.


Um Índio
Caetano Veloso

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá
Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio

domingo, 14 de abril de 2013

DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS OPRIMEM CONTADORES DE MENTIRA

Para além de trágico para o movimento cultural em Suzano, o fechamento do espaço Contadores de Mentira, no Parque Maria Helena, é algo no mínimo curioso.

Fechar um espaço porque ele não possui todos os requisitos formais pode parecer algo bastante razoável, não fosse considerada a realidade como ela é em Suzano.

Para dar apenas um exemplo, boa parte dos estabelecimentos em ruas importantes da cidade possui algum tipo de irregularidade. Os debates realizados em torno da revisão do plano diretor da cidade mostraram que a revisão do zoneamento é necessária para torná-los regulares.

Porém, como se tratava de uma proposição do governo de Marcelo Candido, a oposição sem limites daquele período tomou todas as iniciativas para que ela não fosse aprovada.
  
O que fará a prefeitura, agora capitaneada por aqueles que eram os opositores de ontem, diante desse cenário em que parte importante da cidade possui irregularidades em tantos estabelecimentos.

Curiosamente, a letra fria da lei, a mão pesada do poder do Estado, pousou sobre as cabeças de um grupo de artistas, os Contadores de Mentira, que querem apenas sobreviver de forma colaborativa com artistas da cidade, em seu espaço.

Mas muitas vezes os fins justificam os meios. Questões formais menores imperaram para o fechamento do espaço, quando de fato para o caso os elementos de fundo são outros.

Todos os grupos em Suzano são o que são, com seus coletivos, com suas produções, o resultado do esforço permanente deles próprios. Grupos de teatro, o povo das artes plásticas, os músicos, enfim, os fazedores de cultura, devem observar que o ataque aos Contadores de Mentira, é um ataque ao teatro e a cultura de Suzano.

Nesse caso, o uso de dois pesos e duas medidas coloca o poder do Estado para sufocar aqueles que querem apenas o direito a expressão.

Que os artistas, todos, não fiquem na platéia sentados como se espera de um público bem educado, quietinho. Que rompam a quarta parede, invertam tudo, assumam o palco e nele se manifestem.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Poema em linha reta



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa(Álvaro de Campos)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Do mundo como ele se nos apresenta ou de fato como é


“Janaina é passageira
Passa as horas do seu dia em trens lotados
Filas de supermercados, bancos e repartições
Que repartem sua vida
Mas ela diz
Que apesar de tudo ela tem sonhos
Ela diz
Que um dia a gente há de ser feliz
(...)
Já não imagina
Quantos anos tem
Já na iminência
De outro aniversário
Janaina acorda todo dia às quatro e meia
Já na hora de ir pra cama, janaina pensa
Que o dia não passou
Que nada aconteceu
(Biquíni Cavadão)

Sempre acreditei que o mundo como é vivido não é exatamente o mundo. Aquilo que vemos e ouvimos, tateamos, cheiramos, gostamos, enfim, aquilo que sentimos não é o mundo como ele é. Coisa de quem acredita num mundo paralelo, considerando o mundo real e suas vicissitudes.

Esse entendimento está apoiado em um dado concreto que é a própria existência, e nesse caso da existência humana. Sem a idéia da humanidade isso não faria sentido.

Cada um vive num mundo, com sua observação, com suas vivências e fundamentalmente com a imagem criada a partir de suas representações sobre ele. O mundo não é como é, mas sim como o vemos de fato. Algo que não é uma “coisa”, mas como o vemos, como ele nos toca ou como queremos que ele seja.

Assim, o mundo é uma imagem daquilo que construímos. As pessoas são para nós aquilo que enxergamos. Os objetos também. Eles são outras coisas a serem descobertas no cotidiano, nas vivências com as quais nos deparamos.

Por isso, todo mundo cria um lugar na mente que representa o mundo que lhe compete. O constrói e o vive o quanto pode.

Como é um a experiência humana a ficção também trata de construir histórias fantásticas sobre esse fenômeno. Seja porque já são em si mesmas formas concretas de criação desse mundo que tangencia o outro mundo, seja porque de vez em quando trata dessa questão diretamente como tema para a criação.

Alguns filmes remetem a esse tema. Dois deles, Matrix e Avatar criam mundos diversos a partir da projeção de um futuro em que o homem, com o aparato tecnológico, cria dimensões outras que permitem sensações e a imagem de um mundo idealizado por alguém, e, portanto, a serviço desse alguém. É a sofisticação do mundo disputado e guerreado de forma intensa e desigual, mesmo com enredos de mocinhos e bandidos quando aqueles vencem estes. Coisas do cinema...

No filme A Vida é Bela, um pai vive com o filho o ambiente da segunda guerra na Itália. O amor incondicional do pai e sua preocupação de como seu filho se depararia com esse horror fez com que ele criasse a história dentro da história, um mundo dentro de outro. Nele seu filho poderia sair fazendo qualquer outra leitura e certamente mais velho, compreenderia o ato do pai.

No filme Adeus Lênin, desta vez ao contrário, o filho cria o mundo paralelo. A mãe, entusiasta do regime soviético, fica em coma e só volta desse coma quando o regime já havia caído. As recomendações médicas para o filho dão conta de que ele não deve criar situações em que a mãe convalescida tenha grandes emoções, precisa deixá-la tranquila, longe das tensões.

Assim, cria em sua casa barreiras imensas para que sua mãe enxergasse que a União 
Soviética persistia no mundo daquele apartamento.

O mundo real é voraz. O mundo que a gente cria e cultiva, é aquele que de fato é reconfortante e nos faz seguir adiante.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Tudo Passa

“Tudo passa, tudo passará.
E até lá, vamos viver.
Temos muito ainda por fazer.
Não olhe pra trás.
Apenas começamos.
O mundo começa agora.
Apenas começamos.”
(Renato Russo)


Em contradição à citação acima, não há como não pensar no sentimento de partida. Penso nele todos os dias, porque a cada segundo algo, alguém ou o momento vivido partem, ainda que anunciem o caminho para uma nova jornada. A vida é assim.

É como quando inicia o verão. Ele pode representar o apogeu de um ciclo da vida, já que nele são vivas e mais intensas as cores e as energias, nele são frenéticos os ânimos e mais visíveis as curvas tão propaladas com razão por Oscar Niemeyer. Por outro lado o verão pode representar que algo já foi. Um período que se encerra, o fecho de um ciclo.

É também como quando a gente olha uma foto nossa antiga e acha ridícula aquela roupa, aquele cabelo, mas daria tudo para poder de alguma forma voltar para aquele tempo.

É como quando a gente olha para trás e se lembra de alguém que não se pode mais ver de fato ou quando se anuncia essa possibilidade.

São questões de ponto de vista. Às vezes queremos voltar. Às vezes queremos apenas rememorar. Às vezes queremos a experiência antes que a impossibilidade de vivê-la nos apresente. Acho que é medo da morte e de outras coisas, sei lá.

De fato o tempo nos é cruel. Foi tratado no artigo Carta aos Meus Amigos, dedicado a Juarez Braga. Remoê-lo mais é demais para mim.

Mas estão todas essas coisas reservadas em algum lugar da mente e da memória, já que são contextualizadas de alguma forma e vividas ou revividas, tornando a passagem do tempo algo relativo.

Umas das formas de fazer reviravoltas com a passagem de algo ou de alguém, encontro numa figura semântica - a sinestesia.

Ela existe como idéia, portanto um produto humano, racionalizado para traduzir um fenômeno mental que funde ou confunde sentidos. Segundo um artigo da Wikipedia, sinestesia “é a relação de planos sensoriais diferentes: Por exemplo, o gosto com o cheiro, ou a visão com o tato. O termo é usado para descrever uma figura de linguagem e uma série de fenômenos provocados por uma condição neurológica.”

Naturalmente ela, a sinestesia, é capaz de tornar a memória mais viva. Com a mistura dos sentidos do tato, da visão, do paladar, do olfato, e da audição acho que a gente chega mais perto do real quando alguns deles estão presentes na experiência vivida.

Meu avô materno era um homem extremamente rústico, rústico o suficiente para ser capaz de arrancar o próprio dente, quando a dor era insuportável e a distância real e econômica o impedia de encontrar um consultório dentário nos anos 40 ou 50. Desse camarada, lembro de sua forma rústica, mas essa memória não seria completa sem seu cheiro e o tom de sua voz, essa última característica contraditoriamente tranqüila e serena.

Quando é verão e nos surpreende a chuva, só não ficamos totalmente surpresos com ela pelo cheiro. E a gente “vê” o cheiro de terra molhada porque vê a imagem da chuva caindo antes que os nossos olhos a encontrem. Essa memória fica cravada na mente em algum momento. Na minha e na de qualquer outra pessoa e certamente na do Marcos, que comigo trabalha e é completamente cego.

A boa música também é fantástica para produzir a paisagem vista pelos ouvidos. Sua vibração sempre nos remete a algo.

A memória também se constrói pela imagem produzida pelo contorno que é observado no tato com as palmas das mãos quando do toque, mesmo com os olhos fechados. A forma do objeto construída pelo tato é única.

Em contrapartida, vale também essa grande capacidade de ver o que passa, para aquelas coisas que nos causam sofrimento, daquelas que nos empurram para longe de nossos sonhos.

Mas, por bem, algumas memórias poderão ser revividas, revisitadas. Se não possível de forma real será no pensar.

De qualquer maneira, não há como não pensar no sentimento de partida e ele dói bastante.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A mediocridade é cega, no mínimo míope


Karl Marx foi um dos importantes pensadores do século XIX. Estava à frente do seu tempo. Sua obra é hoje compartimentada nas áreas do conhecimento contemporâneo na filosofia, na história, na economia, na sociologia e um tanto de outras coisas. Viveu o momento da ascensão do capitalismo industrial na Europa e dedicou o melhor de seu tempo em decifrar e construir a compreensão da realidade que vivia em bases científicas.

Com sua concepção, o materialismo dialético, construiu uma detalhada descrição conceitual da forma de organização e de funcionamento do modo de produção capitalista que guarda ainda hoje mantidas as suas bases. Fundamentalmente, foram modificados os meios pelos quais se dão as relações, as interações e a exploração da força de trabalho, mas a sua essência permanece. Há quem o odeie, há quem o ame... Há também o meio termo é verdade, mas ninguém passa pelos seus escritos incólume, indiferente.

Dentre muitas de suas formulações, destaco aquela em que ele define dois estratos da estrutura social. A infra-estrutura e a superestrutura.

A infra-estrutura corresponde ao mundo cotidiano das relações sociais, econômicas e as de trabalho. A outra, a superestrutura, corresponde à regulação dessas relações.

A superestrutura, segundo ele, é a regulação formal pela constituição do Estado e de seu aparato, pelo poder executivo, pelos legisladores, pela justiça e pelas demais instituições. Neles estão impressos os códigos, as regras de como a sociedade como um todo deve se organizar.

Essa constatação parece bastante razoável, já que é fato que a sociedade assim se organiza, transferindo ao Estado parte de sua liberdade de escolhas por uma normatização que garanta o convívio dentro de um padrão de conduta, respeitados certos costumes a bem de uma dinâmica social compatível. É a Polis se organizando.

Não é essa a questão crucial. Todos, à exceção talvez apenas dos anarquistas, compreendem tal pacto social com a presença do Estado. O Problema reside em quais interesses perpassam, influenciam e ditam o conjunto de regras definidas pela tal superestrutura.

Se olharmos para a realidade brasileira, ela foi concebida, construída e comandada por muitos anos pautada por interesses daqueles que dominaram os meios de produção e do conhecimento. Foram quinhentos anos de construção de um Estado desigual com um fosso que separa os pobres da aristocracia.

É bem simples. Segundo Marx, o Estado, que é quem dita regras, representará os interesses daqueles que tem maior poder sobre ele. O Estado está em disputa.

As leis que regulam o direito à propriedade, à assistência social, se a saúde é pública ou privada, se a educação é direito de todos, se as riquezas naturais devem ser exploradas com dividendos para a sociedade ou não, são definidas pelo ESTADO e por quem detém o seu domínio.

Faço esse preâmbulo, porque ouvi de um crítico, sem fundamentação teórica inclusive, de que o governo de Marcelo Candido em Suzano não é transformador.

Se Marx estava certo e acredito, pela lógica, não será transformador um governo (parte da superestrutura), se apenas reproduzir na sua ação de regulação os interesses dos poderosos, os históricos detentores dele. Mas será transformador se buscar o reordenar, o fará em decisões por mudança nas regras do jogo que caminhem para a construção de lugares menos desiguais, aqui especificamente tratando do ordenamento jurídico do lugar.

Essa correlação de forças é que determina se a representação da sociedade busca justiça ou se corrobora com a ampliação das desigualdades. A luta de classes entre a trabalhadora e a dos capitalistas, a detentora do poder historicamente, decidirá o rumo que teremos. Isso vale para qualquer lugar.

Assisti em Suzano projetos de iniciativa do executivo –que é parte da superestrutura, é verdade- ao vislumbrar um horizonte novo, numa perspectiva no mínimo decenal que apontava para uma nova cidade, além das ações diretas que já mudaram para muito melhor a vida das pessoas que aqui vivem.

Foi apresentada a proposta de revisão do plano diretor da cidade que, entre outros avanços, pretendia enfrentar a especulação imobiliária e garantir maior acesso à terra urbana de forma que o interesse público e a redução do déficit habitacional estivessem acima dos interesses dos poucos proprietários de grandes extensões de terra sem uso efetivo, combatendo a sua valorização excessiva e irreal.

Tal iniciativa foi ostensivamente combatida pelos setores mais conservadores do legislativo e da sociedade. Para não tocarem nos seus temas de maior interesse, inconfessáveis, como a manutenção de uma ordem estabelecida que favorece vultosos lucros de especulação imobiliária, rebaixavam o debate para questões menores como exigir zoneamentos na cidade que impedissem a coexistência de atividades comerciais em áreas residenciais, algo incompatível com qualquer cidade metropolitana, para citar apenas o caso da realidade regional incluída a da nossa cidade.

Foi apresentado o projeto que iria reordenar todo o sistema de transporte da cidade garantindo acessibilidade de fato ampliando o número de linhas, garantindo a integração tarifária com o sistema de transporte metropolitano, garantindo também a possibilidade de exigir da empresa concessionária dos serviços a responsabilidade de participar de investimentos na construção de terminais regionais, construção de corredores etc.

Mais uma vez a fração reacionária, que representa os interesses empresariais incapazes de lidar com essas mudanças, fez novo levante. Mas neste episódio, nem os argumentos medíocres foram usados. Garantiram uma maioria quase silenciosa na Câmara Municipal, reprovando-o.

Foi implantada uma experiência de ampliação da calçada entre as praças João Pessoa e dos Expedicionários, trecho de maior movimento de pedestres da cidade. Pretendeu a experiência modificar a circulação de pessoas no centro da cidade para privilegiar a segurança dos pedestres, a grande maioria, em detrimento daqueles que circulam por veículos particulares, não ocasionando para estes últimos qualquer prejuízo.

A montagem da barreira que ampliava a calçada era de floreiras.

Assim, outra vez partiram para o acessório em vez de tratar do principal, que é o direito à cidade. Em vez de discutir o urbanismo, passaram a questionar o quanto custaram as tais floreiras.

Isso para não falar da incompreensão de que a Praça Cidade das Flores representava novos horizontes para o centro da cidade, como de fato se mostrou; da incompreensão do significado da Parada Tiradentes, um projeto maior reduzido ao pondo de ônibus pelos opositores; por não aceitarem que a gestão da Santa Casa, sob intervenção, primasse pelo interesse dos menos favorecidos, fato novo aqui; mas principalmente por não aceitarem e não se conformarem, as elites, com o fato de que um negro do Jardim Revista fosse o comandante que apontasse a cidade para uma nova direção.

Não foi o governo que deixou de ser transformador sob este ponto de vista. Ele esteve sempre à frente de seu tempo. Apenas, em algumas circunstâncias, a mediocridade e os interesses inconfessáveis é que imperaram. Suzano lutou e venceu muitas das batalhas, mudou para melhor em todos os seus recantos, mas as que não foram vencidas estão na conta de uma meia dúzia reacionária que não representa de fato o interesse popular.

Mas a cidade está dividida. Por isso essas eleições foram também divididas, tendo como resultado um governo eleito para os próximos quatro anos com baixa representatividade e sem projeto, a não ser o da xenofobia, do desinteresse pelas questões sociais como devem ser tratadas, pela primazia da mediocridade.

Ao contrário do que disse Marx, o espectro que ronda o porvir, pelo menos no nosso caso, não é o do comunismo, é o da mediocridade.

Por ora ela venceu a capacidade de olhar à frente de seu tempo. Mas novas trincheiras serão posicionadas.

Suzano, 29 de novembro de 2012.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

OS SIGNIFICADOS DAS PALAVRAS E DAS HISTÓRIAS

Muitos são os significados das palavras e expressões. Já foram motivos de um breve texto neste mesmo blog, chamado Sobre a Fidelidade.

Essa relação com a língua, a nossa língua portuguesa, é permanente e enriquecedora, seja porque exercitamos o que conhecemos quando lemos ou falamos, seja pelas descobertas sobre aquilo que achamos que conhecemos.

Usei muitas vezes de forma equivocada a expressão “mensagem subliminar”. Achava bonita, cheia de charme. Usava quando queria dizer que alguém quisesse ocultar algo, dissimular um debate qualquer, que quisesse usar argumentos para defender uma posição que não pudesse ser exposta. Enfim, um bom recurso, até por vezes uma muleta.

Porém, alertado por um camarada, Miguel Reis, descobri que passei vergonhas sem saber até então. Disse-me ele: - A expressão correta nesse caso é “mensagem sub-reptícia”. Corri ao dicionário e confirmei. Sub-reptício quer dizer: que se faz ou se busca com dissimulo ou de forma oculta.
  
A tal da mensagem subliminar é outra coisa e fica para outra vez.

Lembrei-me desta distinção quando lia uma história infantil para minha filha, Ana Carolina. A história era a de “João e o pé de feijão”.

Era uma tarde boa, de sol. Sentei no quintal, peguei o livro e comecei a contar. Ela parece simples e inocente. Começa assim:

João e sua mãe são muito pobres e diante do aperto a mãe pede para João levar a vaca para que fosse vendida. Certamente não havia mais nada que possuíssem. João, uma criança, leva então a vaca por uma estrada.

No caminho, João encontra um senhor que pergunta a ele o que está fazendo com aquela vaca. João diz que vai vendê-la. Então o senhor lhe faz uma oferta e propõe a troca da vaca por feijões mágicos. O garoto fica fascinado pela proposta e realiza o negócio.  Ao chegar a casa, João mostra os feijões. A mãe fica indignada, os joga pela janela e manda o menino para a cama.

No dia seguinte os feijões brotaram. Pela janela, João viu um pé de feijão gigante que tocava as nuvens. Como era um menino peralta, tratou de subir nele.

Lá em cima nas nuvens, João avista um castelo. Entra e descobre que lá habita um gigante. Não chama a atenção do menino o gigante, mas sim uma galinha. Ora, mas uma galinha? O que há de especial nela? Ah... Ela põe ovos diferentes. São de ouro.

João então percebe num determinado momento que o gigante adormeceu. Pega a galinha, uma harpa e corre em direção ao topo do pé de feijão.

Ao se aproximar do pé de feijão, deixa cair a harpa. O som emitido pela harpa acorda o gigante que, ao dar falta de sua galinha, começa a perseguir o menino.

João, com certa vantagem, vem descendo o pé de feijão, com a galinha é claro, e chega ao chão, enquanto o gigante continua descendo pelo mesmo caminho e pede para a mãe um machado e começa a cortar o caule. Cai o pé de feijão e com ele o gigante. Morrem o pé de feijão e o gigante. Este último, certamente com traumatismo craniano.

Sem nenhum arranhão, o menino e a mãe vivem felizes para sempre, com uma galinha botando ovos de ouro. Portanto, super ricos.

Essa é a história.

Ao ler a história comecei a pensar nas possíveis mensagens sub-reptícias e descobri nela uma história de sucessão de crimes.

Logo no começo, a mãe pede para uma criança cumprir uma tarefa de adulto: - Vá lá e venda a vaca, disse ela. Ora, essa não deveria ser uma tarefa atribuída a uma criança, pesa ainda mais numa história infantil. Como diz a música do grupo Palavra Cantada “criança não trabalha, criança dá trabalho”. Já começa a história com um crime, o do trabalho infantil.

Depois, o senhor troca a vaca por feijões supostamente mágicos. A história não diz que ele tinha outros e que os havia testado, fazendo assim o senhor da história não passar de um estelionatário. Aliás, acredito que a magia dos feijões está de fato na noite mal dormida do menino que rezou pedindo muito para não ter feito uma burrada.

Por fim, vem a situação do gigante. Está ele sossegado em seu castelo. O menino João rouba sua galinha que põe ovos de ouro e depois, ao derrubar o pé de feijão, fere de morte o gigante. Trata-se praticamente de um crime de latrocínio. E o mais curioso é que ovos de ouro não devem ter qualquer valor na estratosfera. Certamente o gigante tinha alta estima pela galinha e não interesse econômico.

Quando cheguei ao desfecho da história inventei outro final. Disse para minha filha que o gigante tinha ficado feliz de encontrar no pé de feijão um caminho para a terra, lugar que queria muito conhecer e que, por retribuição, havia doado a penosa ao menino.

Mensagens sub-reptícias povoam nosso dia-a-dia e nossa cultura.

Confesso que menti para você, Ana Carolina, mas foi por uma boa causa.

Suzano, 3 de agosto de 2012.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sobre a Fidelidade

Palavra rica como tantas da língua portuguesa, a fidelidade. Habitualmente a usamos para um de seus significados, quando se trata de uma relação amorosa. Um dos que forma o par a reivindica, quer nela encontrar a expressão, a demonstração de que o (a) outro (a) representa aquilo que idealiza. É, portanto, um jogo de expectativas.

Porém, o termo fidelidade possui mais definições e aplicações.

Na farmácia, ao alcançar o balcão logo vem a pergunta: “O senhor já possui o nosso cartão de fidelidade?”. O cartão, segundo eles abre um universo maravilhoso de descontos, bom atendimento, serviços especiais e milhares de pontos a serem trocados por coisas pouco úteis em troca da fidelidade no consumo. E essa relação é curiosa porque alguns de fato criam tal vínculo. Mas é só consumo, são coisas.

Nas manifestações artísticas também é muito empregada. Uma obra, seja em que linguagem for, produzida a partir de outra, pode ou não guardar fidelidade à primeira. Quando assisti ao filme Vidas Secas fiquei impressionado com a sua proximidade da obra literária escrita por Graciliano Ramos.  Não apenas pelos diálogos, que de fato eram poucos, mas pela riqueza de detalhes na produção que traduzia muito bem pelas imagens a rusticidade da vida no semiárido descrita no livro.

Mas prefiro tratar aqui da que significa coerência, precisão, aderência, responsabilidade com aquilo que se pensa.

Na vida em sociedade somos identificados e nos identificamos com aqueles que supomos terem visão de mundo próxima daquela que constituímos. É assim que as aproximações e distanciamentos se dão. E esse processo não é imediato. São construídos ao longo do tempo, tanto os distanciamentos quanto as aproximações.

Vale nas nossas relações mais próximas, assim como nas de trabalho, na política...

Porém, neste último caso, o da política, onde talvez a subjetividade subjacente aja mais, é onde estão também grandes surpresas.

Cá no meu microcosmo assisto a picadas da mosca azul, tentativas de puxada de tapete, estelionatos eleitoreiros regados a muita, mas muita mediocridade. É impossível cobrar coerência, consistência, posição, já que não há pressupostos, princípios, ética para os que ao outro lado foram, ou que talvez de lá nunca saíram de fato.

Há, portanto, tão somente uma fidelidade a sede de alcançar uma posição. Pensar em o que fazer com ela é mero detalhe, ficará para outro momento. Oportunistas circunstanciais embriagados por um frenesi acéfalo. Por isso, são por natureza natimortos esses projetos.

Em uma música, intitulada Fidelidade Partidária, os autores Wilson Moreira e Nei Lopes descrevem o que no seu entendimento é o comportamento fiel ao modo de vida de sua comunidade, quando perguntados pela tia-avó centenária, Rosária, sobre o que é fidelidade partidária.

Lembro que neste caso, a expressão partidária dá significado para a comunidade em que se está inserido e deriva de “partideiro”, denominação dada àquele que interpreta e que participa das rodas de samba, que tem raiz.

Partido tem como raiz parte. Parte pode ser uma fração de algo, pode ser uma causa, pode designar um lugar. Mas o melhor de seus significados neste contexto é: lado.

Tenho lado, faço sua defesa e o declaro. Às vezes ouço alguns bradarem que estão do mesmo lado, mas curiosamente, desses alguns, ouço a voz fraca, difícil de ouvir. Talvez porque não a do corpo, mas a voz da alma venha lá de longe, do outro lado.

Palavra rica como tantas da língua portuguesa, a fidelidade, segue mal tratada.

Ouçam a música com letra no link abaixo.
Suzano, 24 de maio de 2012

sábado, 7 de abril de 2012

Cultura e a construção de um mundo diverso.




O crescimento vertiginoso das visões de ultra-direita em todo o mundo é um fato. Elas se mostram de diversas formas. Pelas impressões dadas em frequentes manifestações individuais, assim como pelo fortalecimento de organizações que defendem diretamente seus posicionamentos, implicando na forma de condução do Estado, sobre o mercado ou até sobre o comportamento das pessoas.
Estão pautados principalmente pela intolerância às diferenças no padrão de comportamento que se manifestam nas orientações sexuais, nas opções políticas, nas opções religiosas, nos traços étnicos e culturais diferentes dos seus e principalmente na defesa da priorização dos direitos individuais em detrimento dos coletivos.
Propagam-se de forma veloz, apoiadas nos recursos trazidos pela revolução tecnológica que vivemos nos últimos anos, pois, se é verdade que eles tem garantido maior troca de informações e portanto, o aprimoramento do conhecimento sobre nossas diferenças, contraditoriamente tem ecoado, espantosamente por meio de jovens, pensamentos xenófobos, racistas, islamofóbicos, homofóbicos e de ataque aos direitos humanos.
Os Estados, para alguns, devem criminalizar mecanismos como os movimentos sociais, devem desonerar o sistema produtivo a partir da redução dos direitos dos trabalhadores, devem afrouxar o controle sobre o mercado imobiliário favorecendo a especulação, devem levar ao mínimo a regulação sobre o mercado produtivo e financeiro, adotar medidas desequilibradas nas relações comerciais internacionais e ter largo poder de polícia e bélico para assegurar a devida tranquilidade nessa ordem estabelecida, assim como para seu aprofundamento.
São muitos os exemplos de fatos recentes preocupantes, para além dos históricos já conhecidos.
No ano de 2011, A Bolívia deveria ser invadida. A saída negociada em torno do impasse da questão energética era demonstração de fraqueza. Tantos, a qualquer tempo declaram publicamente nas redes sociais sua aversão aos nordestinos, aos negros, aos homossexuais. Muitos atacam sistematicamente programas sociais brasileiros que evitam milhões de mortes na miséria, que emancipam outros milhões e que garantem o acesso à formação acadêmica, aos bens de consumo e a terra, sob a magnífica lógica contrária do “ensinar a pescar em vez de dar o peixe”, como se ele, o “peixe” fosse tão fácil de se agarrar.
Foram mortos quase uma centena de jovens na Noruega, em 23 de julho de 2011. Três crianças e um adulto judeus mortos na França por neonazistas em 19 de março de 2012. Avançaram organizações como o Tea Party, nos Estados Unidos e governos na Europa que buscam reproduzir um modelo em que o aparato estatal deve seguir a extensa e sofisticada cartilha dos interesses do GRANDE capital.
Nesse contexto de intolerância, os atos de violência como os citados esperam somente a oportunidade. Eles representam a ponta do iceberg de pensamentos e posicionamentos inconfessáveis que alimentam o ódio que vem avançando na forma de um traço comportamental e cultural do pensamento hegemônico vigente.
Naturalmente, essa sofisticada engenharia não está, e ainda bem, imune à reação e resistência. Assim como o mundo assiste ao avanço da extrema-direita, houve manifestações contrárias certas vezes mesmo violentas, como a que observamos há algum tempo na Inglaterra, sobre a qual caberia um debate específico, já que o estopim, mais do que um fato pontual da morte de uma pessoa, foi na verdade uma reação a crescente atmosfera de cerceamento, de intolerância e da constante redução dos direitos, entre outros à assistência social.
Porém, as mais importantes e que devem ser incentivadas, são as iniciativas de resistência que disputam na sociedade a compreensão de que a diversidade, respeitada e estimulada, é a chave do processo civilizatório. Compreender que é normal ser diferente se faz necessário e a principal forma de expressão dessa diversidade se dá por condições a serem criadas e incentivadas de se deparar com a diferença. O mecanismo mais eficiente para essa construção é o acesso à cultura. Mas porque também não dizer, das culturas.
Nos últimos anos, o conceito governamental de cultura no Brasil ampliou seu leque para além da visão tradicional que considerava apenas algumas áreas das artes, notadamente as classificadas como eruditas, como formas de expressão cultural. Hoje, compreende-se como cultura uma vasta gama de expressões e de costumes, dentre tantas outras coisas. Elas se mantêm resistentes a um padrão de comportamento trazido e incentivado no processo de globalização que ganha cada vez mais musculatura, o de consumo.
Este embate, um conflito permanente e desigual, existe em qualquer lugar. É disputado em trincheiras igualmente desiguais, tanto que por muitas vezes o poderio do capital compra, incorpora às suas estratégias de negócio, expressões e manifestações culturais. Transformam-nas em produtos, e como qualquer outro produto, embutido neles a mais-valia. São capazes de comprar, transformar a capacidade de criação em um objeto de mercado. Enfim, se apodera dos meios de produção do outro, neste caso dos fazedores de cultura, do povo, tamanha a sua sofisticação.
Porém, como disse certa vez um grande estudioso do processo de globalização, o geógrafo Milton Santos, da mesma forma que existe uma intensa pressão do comportamento hegemônico sobre os lugares e sobre as culturas locais, há também nestes lugares uma resistência que pretende algo muito simples, mas muito valioso: a busca do direito à identidade.
Assim, entre vitórias e derrotas, essa disputa segue seu curso.
Quanto ao papel do Estado, igualmente em disputa, do lado de cá, entendo que ele, como síntese da sociedade, deve incorporar a diversidade como algo a ser preservado, estimulado e difundido.
Conceituar a cultura assim, de forma ampla, cria as condições para que se possa idealizar e implantar políticas que explorem cada vez mais a garantia do acesso, da livre manifestação cultural e da compreensão de um mundo diverso como de fato é.
A crescente oportunidade de se deparar com a diferença, compreendê-la e aprender com ela, têm um efeito que colabora com o avanço da humanidade. Ampliar esse debate é fundamental.
Não apenas a tolerância, mas o efetivo respeito e o apreço pelo diferente representam a mais eficiente resposta. Certamente está aí um dos caminhos para a construção da justiça, da fraternidade e da paz no mundo, ainda que sob tensão permanente.

20 de março de 2012, em Suzano.

Zé Candido



No início dos anos 90, cheguei à cidade de Suzano pela primeira vez. Mas vim de fato para conhecer uma grande família grande. O pai, a mãe e seis dos seus sete filhos. Um dos filhos, que já havia conhecido no interior de São Paulo, foi quem me levou aos demais.
Eles moravam numa casa no Jardim Revista, bairro da periferia desta cidade. Era uma casa grande e simples construída em um terreno acidentado e numa rua sem pavimentação. Do topo do morro, no Revista, era possível ver do lado de cá, na margem direita do Tietê, o “buracão”, uma área inundada da várzea e na outra margem à diante, o centro da cidade. Uma bela vista.A casa tinha as suas portas constantemente abertas, pelas quais passavam livremente os seus amigos e vizinhos.As crianças (moradoras ou não) brincavam na sala. A mãe, Dona Laura, eu vi preparando uma refeição, interrompida diversas vezes por amigos e vizinhos que chegavam. O pai, José, amistoso e gentil, entrava em casa, falava com quem lá estava e saía rapidamente. Tinha mil coisas a fazer.José Candido, era ele.
Militante do PT e vereador. O único a se opor ao modelo e ao poder constituído na cidade que mantinha suas mazelas há décadas para a manutenção do enriquecimento de poucos, de forma que o desejo da grande maioria excluída era sufocado.Seguiu como vereador por quase todo o tempo como a única voz a defendê-los, os sufocados.Assim como a grande maioria excluída era sufocada, tentavam sufocá-lo. Não abriu mão de sua posição.
José Candido manteve uma vida modesta e criou seus filhos com a mesma dignidade que qualquer outro trabalhador conseguiria com seus proventos. Lutava pela garantia de direitos às pessoas, na mesma medida em que essas garantias deveriam ser conquistadas para os seus próprios filhos. Não queria mais para os seus.
Ao contrário de tantas pessoas, ele colocou sua vida privada a serviço do público.
Esse jeito do Zé Candido de encarar a vida, de qual era o seu papel na sociedade me chamou muito a atenção e é certamente o que fez com que muitas pessoas o respeitassem e tantas outras o seguissem. Foi isso que observei, constatei e posso testemunhar como algo verdadeiro.
De lá para cá, seus frutos continuaram a semear o bem comum. Por isso Suzano avançou tanto com o Marcelo, sem fisiologismos, sem a sobreposição de interesses pessoais sobre os coletivos.
Hoje completam sete dias da morte de José Candido.Não podemos mais falar com ele, mas podemos visitar sua história e continuar a encontrar nela respostas sobre o que fazer.
No dicionário, cândido quer dizer: adj. 1 Alvo, imaculado. 2 fig. Puro, ingênuo, inocente. É assim que o vejo e o seu legado.19 de fevereiro de 2012, em Suzano/SP

CARTA AOS MEUS AMIGOS




Dia desses me peguei a pensar sobre o tempo, como a gente o sente. A pensar como passa ligeiro quando nos deparamos com uma tarefa quotidiana, ao constatar o quanto uma criança cresce rápido, assim como para viver a própria vida. A pensar sobre como nos escapa rapidamente. Em como parece com a areia fina e seca que foge das mãos por entre os dedos, por mais que a gente se esforce em segurá-la. Areia de ampulheta. Aquele tempo cantado pelo DJ Thaíde “que não volta nunca mais”.
Pensei no futuro que vem chegando, na precisão do relógio. O novo, o incerto e incógnito. A vanguarda! Ele compreende as coisas do mundo com frescor, com a leitura moderna e singular, capaz de explicar e solucionar tudo.
Já o passado sabido, que também carrega seus mistérios, por outro lado tem a capacidade de recapitular. Fruto do acúmulo histórico narra, faz a crítica, entende outro tanto de coisas. É a memória de tudo e por isso é capaz até de antever para onde vai o novo, já que muitas vezes é o velho-novo, o eterno retorno de Nietzsche.
A construção lógica do tempo estabelece uma referência sobre aquilo que vem e o que passa. Na sua métrica cartesiana pretende bestamente pôr algum controle sobre aquilo que não nos pertence. Mas pelo mesmo raciocínio lógico e, portanto humano, ouvi de um grande amigo, que a gente é que passa por ele (o tempo). Está aí parte da resposta. Tudo não é nada além de uma questão de escala. De fato a gente é que passa por ele!
Isso permite compreender a frágil presença da existência, pelo menos a do indivíduo. É como o velho pescador de Hemingway, em “O Velho e o Mar”, que se perde em meio à imensidão do oceano numa épica batalha contra um peixe e que dela resulta um sentimento de força, de grandeza, mas que morrerá junto com o velho.
Individualmente, viemos do nada e para ele vamos. Pode demorar algum tempo, mas vamos. Como me disse um companheiro, à luz da definição que parte de um filósofo, cujo nome não me recordo, de que a “existência é algo entre dois nadas”.
Apesar disso tudo, somos instintivamente impulsionados a fazer, a fazer sempre, enquanto aquele mesmo tempo permita. É, pois, da natureza humana. Em erros e acertos, construímos algo que efetivamente sabe-se lá onde vai dar. A gente faz coisas, constrói edifícios, o nosso mundo, um punhado de idéias e conceitos, promove mudanças.
Tentamos a todo custo nos tornar imortais ou imortalizar algo. Buscamos acreditar em algo além da vida por meio da fé, projetamos os genes à diante, tentamos fazer e marcar a história. Usamos uma série de artifícios numa engenhosa tentativa de contra-atacar e de contrariar o rigoroso e impassível tempo.
Há poucos dias perdemos um grande companheiro. Juarez Araújo Braga, o professor Juarez, ou simplesmente o Juju, como também era conhecido. Falo dele, mas tomo a liberdade de citá-lo como exemplo de tantos outros de grande valor também nos deixaram.
Ele representava a história viva de um período tão importante, mas que já vem sendo de forma sistemática colocado de canto, num canto que tende ao esquecimento. Foi militante do Partido Comunista, o partidão, numa época em que era muito mais difícil assumir uma postura à esquerda.
Filósofo, formado tardiamente para os padrões comuns escrevia muito, assim como pensava. Com mais de setenta anos, quando o conheci, não negava, ao contrário, nos convocava a uma mesa de bar, local onde “resolvemos todos os problemas do mundo”, com muita disposição, alegria e boa conversa.
Ficará assim na minha memória, enquanto ela existir.
Temos de contar a nossa história, daqueles que estiveram e que estão conosco. Faço e farei isso sempre. Celebrar a vida acima de tudo entendendo a sua grandeza e fragilidade, especialmente daqueles que me cercam, de forma que a gente possa sempre lembrar, reconhecer e cuidar uns dos outros.
O tempo é o que nos resta.

Outubro de 2010