quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A mediocridade é cega, no mínimo míope


Karl Marx foi um dos importantes pensadores do século XIX. Estava à frente do seu tempo. Sua obra é hoje compartimentada nas áreas do conhecimento contemporâneo na filosofia, na história, na economia, na sociologia e um tanto de outras coisas. Viveu o momento da ascensão do capitalismo industrial na Europa e dedicou o melhor de seu tempo em decifrar e construir a compreensão da realidade que vivia em bases científicas.

Com sua concepção, o materialismo dialético, construiu uma detalhada descrição conceitual da forma de organização e de funcionamento do modo de produção capitalista que guarda ainda hoje mantidas as suas bases. Fundamentalmente, foram modificados os meios pelos quais se dão as relações, as interações e a exploração da força de trabalho, mas a sua essência permanece. Há quem o odeie, há quem o ame... Há também o meio termo é verdade, mas ninguém passa pelos seus escritos incólume, indiferente.

Dentre muitas de suas formulações, destaco aquela em que ele define dois estratos da estrutura social. A infra-estrutura e a superestrutura.

A infra-estrutura corresponde ao mundo cotidiano das relações sociais, econômicas e as de trabalho. A outra, a superestrutura, corresponde à regulação dessas relações.

A superestrutura, segundo ele, é a regulação formal pela constituição do Estado e de seu aparato, pelo poder executivo, pelos legisladores, pela justiça e pelas demais instituições. Neles estão impressos os códigos, as regras de como a sociedade como um todo deve se organizar.

Essa constatação parece bastante razoável, já que é fato que a sociedade assim se organiza, transferindo ao Estado parte de sua liberdade de escolhas por uma normatização que garanta o convívio dentro de um padrão de conduta, respeitados certos costumes a bem de uma dinâmica social compatível. É a Polis se organizando.

Não é essa a questão crucial. Todos, à exceção talvez apenas dos anarquistas, compreendem tal pacto social com a presença do Estado. O Problema reside em quais interesses perpassam, influenciam e ditam o conjunto de regras definidas pela tal superestrutura.

Se olharmos para a realidade brasileira, ela foi concebida, construída e comandada por muitos anos pautada por interesses daqueles que dominaram os meios de produção e do conhecimento. Foram quinhentos anos de construção de um Estado desigual com um fosso que separa os pobres da aristocracia.

É bem simples. Segundo Marx, o Estado, que é quem dita regras, representará os interesses daqueles que tem maior poder sobre ele. O Estado está em disputa.

As leis que regulam o direito à propriedade, à assistência social, se a saúde é pública ou privada, se a educação é direito de todos, se as riquezas naturais devem ser exploradas com dividendos para a sociedade ou não, são definidas pelo ESTADO e por quem detém o seu domínio.

Faço esse preâmbulo, porque ouvi de um crítico, sem fundamentação teórica inclusive, de que o governo de Marcelo Candido em Suzano não é transformador.

Se Marx estava certo e acredito, pela lógica, não será transformador um governo (parte da superestrutura), se apenas reproduzir na sua ação de regulação os interesses dos poderosos, os históricos detentores dele. Mas será transformador se buscar o reordenar, o fará em decisões por mudança nas regras do jogo que caminhem para a construção de lugares menos desiguais, aqui especificamente tratando do ordenamento jurídico do lugar.

Essa correlação de forças é que determina se a representação da sociedade busca justiça ou se corrobora com a ampliação das desigualdades. A luta de classes entre a trabalhadora e a dos capitalistas, a detentora do poder historicamente, decidirá o rumo que teremos. Isso vale para qualquer lugar.

Assisti em Suzano projetos de iniciativa do executivo –que é parte da superestrutura, é verdade- ao vislumbrar um horizonte novo, numa perspectiva no mínimo decenal que apontava para uma nova cidade, além das ações diretas que já mudaram para muito melhor a vida das pessoas que aqui vivem.

Foi apresentada a proposta de revisão do plano diretor da cidade que, entre outros avanços, pretendia enfrentar a especulação imobiliária e garantir maior acesso à terra urbana de forma que o interesse público e a redução do déficit habitacional estivessem acima dos interesses dos poucos proprietários de grandes extensões de terra sem uso efetivo, combatendo a sua valorização excessiva e irreal.

Tal iniciativa foi ostensivamente combatida pelos setores mais conservadores do legislativo e da sociedade. Para não tocarem nos seus temas de maior interesse, inconfessáveis, como a manutenção de uma ordem estabelecida que favorece vultosos lucros de especulação imobiliária, rebaixavam o debate para questões menores como exigir zoneamentos na cidade que impedissem a coexistência de atividades comerciais em áreas residenciais, algo incompatível com qualquer cidade metropolitana, para citar apenas o caso da realidade regional incluída a da nossa cidade.

Foi apresentado o projeto que iria reordenar todo o sistema de transporte da cidade garantindo acessibilidade de fato ampliando o número de linhas, garantindo a integração tarifária com o sistema de transporte metropolitano, garantindo também a possibilidade de exigir da empresa concessionária dos serviços a responsabilidade de participar de investimentos na construção de terminais regionais, construção de corredores etc.

Mais uma vez a fração reacionária, que representa os interesses empresariais incapazes de lidar com essas mudanças, fez novo levante. Mas neste episódio, nem os argumentos medíocres foram usados. Garantiram uma maioria quase silenciosa na Câmara Municipal, reprovando-o.

Foi implantada uma experiência de ampliação da calçada entre as praças João Pessoa e dos Expedicionários, trecho de maior movimento de pedestres da cidade. Pretendeu a experiência modificar a circulação de pessoas no centro da cidade para privilegiar a segurança dos pedestres, a grande maioria, em detrimento daqueles que circulam por veículos particulares, não ocasionando para estes últimos qualquer prejuízo.

A montagem da barreira que ampliava a calçada era de floreiras.

Assim, outra vez partiram para o acessório em vez de tratar do principal, que é o direito à cidade. Em vez de discutir o urbanismo, passaram a questionar o quanto custaram as tais floreiras.

Isso para não falar da incompreensão de que a Praça Cidade das Flores representava novos horizontes para o centro da cidade, como de fato se mostrou; da incompreensão do significado da Parada Tiradentes, um projeto maior reduzido ao pondo de ônibus pelos opositores; por não aceitarem que a gestão da Santa Casa, sob intervenção, primasse pelo interesse dos menos favorecidos, fato novo aqui; mas principalmente por não aceitarem e não se conformarem, as elites, com o fato de que um negro do Jardim Revista fosse o comandante que apontasse a cidade para uma nova direção.

Não foi o governo que deixou de ser transformador sob este ponto de vista. Ele esteve sempre à frente de seu tempo. Apenas, em algumas circunstâncias, a mediocridade e os interesses inconfessáveis é que imperaram. Suzano lutou e venceu muitas das batalhas, mudou para melhor em todos os seus recantos, mas as que não foram vencidas estão na conta de uma meia dúzia reacionária que não representa de fato o interesse popular.

Mas a cidade está dividida. Por isso essas eleições foram também divididas, tendo como resultado um governo eleito para os próximos quatro anos com baixa representatividade e sem projeto, a não ser o da xenofobia, do desinteresse pelas questões sociais como devem ser tratadas, pela primazia da mediocridade.

Ao contrário do que disse Marx, o espectro que ronda o porvir, pelo menos no nosso caso, não é o do comunismo, é o da mediocridade.

Por ora ela venceu a capacidade de olhar à frente de seu tempo. Mas novas trincheiras serão posicionadas.

Suzano, 29 de novembro de 2012.