sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Mal a Quem?

“Eu não posso causar mal nenhum
A não ser a mim mesmo,
a não ser a mim...”


A canção revela uma enorme contradição sobre essa idéia de fazer o mal, da capacidade de produzi-lo, de reproduzi-lo, apesar de que talvez Cazuza e Lobão a tenham escrito como um lamento de alguém que está cansado de um tanto de coisas.

Diante de tanta iniqüidade no mundo, fazer o mal a alguém ou no atacado a um monte de gente parece óbvio. São muitos os exemplos e basta ver ou ler o noticiário da mídia sangrenta, ficar atento ao que se diz ou ao que se escreve nestes meios e nas redes sociais para constatar que a maldade humana é capaz sim de se projetar.

Alguns filósofos entendem que o Homem é bom, outros entendem o contrário. Depende do contexto em que viveram, já que a filosofia deriva disso, ou de serem eles por natureza mal ou bem humorados, conforme o caso.

Um tempero a mais nisso está em o quanto é relativo o entendimento sobre o mesmo objeto, o mesmo assunto, quando comparado com as visões das pessoas. E como estamos falando de filósofos, um deles parou de perseguir posições absolutas e disse que “o homem é a medida de todas as coisas”. Seu nome era Protágoras. Um dos gregos.

Se o homem é a medida de todas as coisas, logo podemos nos libertar da engenhosa, cansativa e impossível construção de elaborar uma única forma de pensar para então compreender, ou pelo menos tentar entender, que existe um punhado de formas de pensar. É mais complexo, mas é bem melhor assim. Mais rico e mais interessante.

Portanto, não há problema em pensar diferente. O problema reside de fato em não pensar. Deixar de pensar, e alguns fazem disso um exercício diário, não permite refletir sobre si, sobre o outro, sobre o mundo. Mesmo a posição mais reacionária exige argumento. Se ao menos tiver argumento há o que se debater, há conversa. Se não, se esgota a desejada conversa, ela passa a ser impossível.

É como olhar para uma janela que pode ter a dimensão de todo o cômodo ou ter poucos centímetros de amplitude. Olhar o mundo pelos olhos de alguém pode ser fantástico ou uma grande decepção. É preferível um lugar com janelas que ocupam todo o espaço do que um com paredes retas, cartesianas com alegorias que nos distraem. O mundo é plural e deve ser assim entendido. Mas o é em uma pluralidade sã.

Procuramos olhar o mundo pelos próprios olhos, mas quando o exercício de fazê-lo é pelos olhos de alguém, queremos algo maior.

Porém o bombardeio de bestialidades está à mostra na time line da rede social. Bestialidades reproduzidas com pouca elaboração de quem as faz e nenhuma de quem as reproduz.

Disseram nestes dias que um médico cubano não se comporta como um médico, ou algo parecido. Mas médico é algo? Médico se comporta como alguém? Acho que os médicos são “alguns” e seus comportamentos também devem ser “alguns”. Definitivamente, não importa se são cubanos, brasileiros, canadenses, italianos, marroquinos.

Reproduzem a imagem do Ministro do Supremo Tribunal Federal, o Joaquim Barbosa, como a salvação do Brasil, sem compreender que o judiciário é também, como o executivo e o legislativo, uma expressão da sociedade e, por isso, cheio de contradições.

A questão central não é “achar isso ou aquilo”, mas sim “qual o argumento disso ou daquilo”. As pessoas se perguntam sobre o que dizem antes de dizer ou se perguntam antes de compartilhar?

Dizer algo é como contar histórias. Para contá-las devemos incorporá-las, compreender sua dimensão, seu tempo, quem as criou e sua personalidade e, ao recontá-las, trazer aquilo que acreditamos. Se não se importam em compreender, logo não se importam com o que significa contar histórias!

Por isso a contradição da música. Posso causar mal, muito mal, para além de mim mesmo, se reproduzo coisas sem algo fundamental ao ser humano: o pensar.



30 de agosto de 2013.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

EVITEMOS AVATARES

A tentativa de tornar virtual a vida não é algo de hoje. Muitos de nós, ou todos nós, exercitamos diariamente experimentar relações com pessoas e coisas de um jeito, no mínimo, diferente da usual.

Há muito tempo os videogames fazem isso. Tem gente que perde tempo precioso diante deles e acha que a vida reside neles, sem olhar a quem, do lado. Jogam o jogo. Crianças tudo bem... Elas são pequenas o suficiente para se ludibriarem ainda com isso.

Depois dos videogames, outras formas virtuais vieram. Os “tamagotchis” também surgiram. Eram os “amigos virtuais”. Tratava-se de programas que simulavam bebês, que precisavam de atenção (comer, brincar, estudar e outras coisas), se assistidos viravam um passarinho, se não, um morcego.

Os e-mails são a versão virtual das cartas, com a vantagem de serem instantâneos. Se quero enviar uma carta mando na hora que quero, mas o destinatário, por outro lado a lê quando quiser.

Digo isso, porque essa virtualização das coisas do cotidiano atingiram um patamar de sofisticação tamanho que não se trata mais de se criar uma interface, ou seja, até aqui estamos falando de mecanismos, de ferramentas que nos colocam como somos no mundo não real.

Ocorre que as versões mais atuais do mundo virtual, como esse feicebuque (parafraseando Tom Zé) cria algo diferente. Cria para além de uma interface virtual, uma personalidade virtual. O que chamo aqui de avatares nas redes sociais.

Quando a gente se encobre por detrás desse pano, a gente cria (e me incluo nisso) uma personalidade que dialoga pouco com a nossa das ruas, do trabalho, enfim, das relações sociais reais.

Assim, o meu eu virtual é diferente do meu eu real. É um tanto cômodo, no teclado atacar alguém. Me escondo em meu avatar. Depois, quando encontro a pessoa na rua, conversam as pessoas e não seus avatares. Aí são tapas nas costas e um jeito mais lento, mas também mais cadenciado de realizar essa disputa.

Temos amigos no feicebuque, que ao encontrar na rua não os vemos. Por que não os conhecemos na vida. Ter 1.000 amigos dá status, mas os conheço de fato? Por que interessa romper a barreira dos 1.000 ou 2.000 amigos? E preencher o limite máximo então, os 5.000 amigos?

Ser amigo dá trabalho. Impossível ter 5.000 amigos. Acho que uns 100 já ultrapassam a nossa capacidade de exercitar a amizade.

Outra questão é a profundidade das coisas nas redes sociais. São capazes de reproduzir com força pensamentos reacionários e com fraqueza o mais avançado, o democrático, o razoável. Reforçam visões absolutas e definitivas e enfraquecem aquelas que relativizam, que mais perguntam do que respondem.

Nesse sentido, aquilo que lemos tem uma profundidade impressionantemente rasa, comparada à capacidade de acumular informações da internet. As redes privilegiam a informação presta curta, rápida e, portanto, rasa.

Fotos bonitas com frases de efeito afetam mais. Textos longos, mais profundos, com mais de uma página, afetam muito menos. 

Mais uma: Na música ruim, o funkeiro diz: “tira foto no espelho pra postar no ‘feicebuque’”. A gente escolhe a melhor foto, o melhor ângulo, que nunca qualquer pessoa encontrará ao vivo. Portanto, além de mais agressivos e mais corajosos do que nós, os nossos avatares são
mais bonitos que nós.

Mas é possível que as coisas aconteçam no virtual? Acho que não. É no mundo real que as coisas acontecem. E no mundo real somos piores, mas é nele que as coisas acontecem, é nele que dialogamos.

Há quem seja mais ativo nas relações virtuais. É comum numa mesa de restaurante pessoas sentarem e não conversarem muito. Conversam com outras pessoas que não estão lá fisicamente. De novo a mesa real perde para a mesa virtual num lugar virtual.

É um contra-senso que meu avatar me supere, que eu seja um morto-vivo na vida e alguém “super legal” no virtual. Essa personalidade virtual que projetamos, e que representa o exagero ou a maquiagem do que somos não pode ser reconhecida como nós mesmos. Ao contrário. Que virem os nossos avatares os mortos-vivos e que sejamos vivos na vida.

O meu, a partir de hoje, passa a ser um desses mortos-vivos. Diálogos agora ou ao vivo, ou por correio eletrônico, ou por telefone...


Matemos nossas personalidades virtuais e se isso não for possível, evitemos os avatares.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

GRANDES TORNOZELOS E CALCANHARES MUDARIAM O DESTINO DE AQUILES


O Cânone Ocidental, escrito por Harold Bloom, traz um apanhado da literatura e dos pensadores que redundam naquilo que pode ser um esforço, com muito custo é verdade, da síntese do pensamento e da cultura ocidental.

Lê-lo é um bom exercício para tentar compreender uma parte dos fundamentos que estão nos clássicos, que ao serem mais visitados, vão dar uma maior compreensão de onde estamos e de nossas contradições. Digo isso porque devo a eles mais disciplina e visitas.

Aquiles e outros mais são o arquétipo da nossa civilização. Ele é uma figura mítica. Antes fosse mística, por que aí poderíamos analisar a sua concretude, já que teria existido de fato. Mas Homero é quem o fez, com todas as controvérsias, em seus épicos escritos.

De qualquer forma, sendo mítica essa figura, ela foi produzida e ainda é reproduzida pela sociedade contemporânea a seu interesse. Um herói, invencível com valores morais e éticos, “tranquilo e infalível como Bruce Lee”, o arquétipo.

Por que é que precisamos disso? Que raio de pensamento é esse que temos de construir uma idéia de invencibilidade e que nela esteja sempre presente a imagem de heróis e que estes, apesar de criados por nós, nunca estão na gente. É como quando o super-homem, para salvar a reles mortal Lois Lane, fez o mundo girar ao contrário e voltar o tempo, salvando-a.

Acho que talvez porque é mais fácil sempre ser tributário1 de alguém ou de alguns. Por isso muita gente se sente tão bem consumindo coisas fúteis, cheias de significação fútil. Talvez também porque a gente carrega o fardo de um cristianismo católico-caótico, protestante e pentecostal poderoso, hierárquico, anacrônico e mercantilista que cerceia a diversificação da forma de se viver em nosso planeta, mas que nos dá um suposto alicerce, que vai além do significado real de Cristo. Talvez também porque a gente se sinta mais confortável em ser representado por alguém em vez de assumir o protagonismo possível.

É fato que vivemos de nossa suposta fortaleza, mas também acumulamos nossas reais fraquezas. Aquiles é um arquétipo, mas se tivesse um pouco mais de tornozelos, tornozelões e calcanhares de carne e osso, não teria sucumbido, ainda mais por causa de uma flechinha envenenada.

No fundo é um herói bem mequetrefe esse..

24 de abril, às 22:28

1 Diz-se que é tributário, na geografia, um rio que deságua em um outro ou no mar.


Um Índio
Caetano Veloso

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá
Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio

domingo, 14 de abril de 2013

DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS OPRIMEM CONTADORES DE MENTIRA

Para além de trágico para o movimento cultural em Suzano, o fechamento do espaço Contadores de Mentira, no Parque Maria Helena, é algo no mínimo curioso.

Fechar um espaço porque ele não possui todos os requisitos formais pode parecer algo bastante razoável, não fosse considerada a realidade como ela é em Suzano.

Para dar apenas um exemplo, boa parte dos estabelecimentos em ruas importantes da cidade possui algum tipo de irregularidade. Os debates realizados em torno da revisão do plano diretor da cidade mostraram que a revisão do zoneamento é necessária para torná-los regulares.

Porém, como se tratava de uma proposição do governo de Marcelo Candido, a oposição sem limites daquele período tomou todas as iniciativas para que ela não fosse aprovada.
  
O que fará a prefeitura, agora capitaneada por aqueles que eram os opositores de ontem, diante desse cenário em que parte importante da cidade possui irregularidades em tantos estabelecimentos.

Curiosamente, a letra fria da lei, a mão pesada do poder do Estado, pousou sobre as cabeças de um grupo de artistas, os Contadores de Mentira, que querem apenas sobreviver de forma colaborativa com artistas da cidade, em seu espaço.

Mas muitas vezes os fins justificam os meios. Questões formais menores imperaram para o fechamento do espaço, quando de fato para o caso os elementos de fundo são outros.

Todos os grupos em Suzano são o que são, com seus coletivos, com suas produções, o resultado do esforço permanente deles próprios. Grupos de teatro, o povo das artes plásticas, os músicos, enfim, os fazedores de cultura, devem observar que o ataque aos Contadores de Mentira, é um ataque ao teatro e a cultura de Suzano.

Nesse caso, o uso de dois pesos e duas medidas coloca o poder do Estado para sufocar aqueles que querem apenas o direito a expressão.

Que os artistas, todos, não fiquem na platéia sentados como se espera de um público bem educado, quietinho. Que rompam a quarta parede, invertam tudo, assumam o palco e nele se manifestem.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Poema em linha reta



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa(Álvaro de Campos)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Do mundo como ele se nos apresenta ou de fato como é


“Janaina é passageira
Passa as horas do seu dia em trens lotados
Filas de supermercados, bancos e repartições
Que repartem sua vida
Mas ela diz
Que apesar de tudo ela tem sonhos
Ela diz
Que um dia a gente há de ser feliz
(...)
Já não imagina
Quantos anos tem
Já na iminência
De outro aniversário
Janaina acorda todo dia às quatro e meia
Já na hora de ir pra cama, janaina pensa
Que o dia não passou
Que nada aconteceu
(Biquíni Cavadão)

Sempre acreditei que o mundo como é vivido não é exatamente o mundo. Aquilo que vemos e ouvimos, tateamos, cheiramos, gostamos, enfim, aquilo que sentimos não é o mundo como ele é. Coisa de quem acredita num mundo paralelo, considerando o mundo real e suas vicissitudes.

Esse entendimento está apoiado em um dado concreto que é a própria existência, e nesse caso da existência humana. Sem a idéia da humanidade isso não faria sentido.

Cada um vive num mundo, com sua observação, com suas vivências e fundamentalmente com a imagem criada a partir de suas representações sobre ele. O mundo não é como é, mas sim como o vemos de fato. Algo que não é uma “coisa”, mas como o vemos, como ele nos toca ou como queremos que ele seja.

Assim, o mundo é uma imagem daquilo que construímos. As pessoas são para nós aquilo que enxergamos. Os objetos também. Eles são outras coisas a serem descobertas no cotidiano, nas vivências com as quais nos deparamos.

Por isso, todo mundo cria um lugar na mente que representa o mundo que lhe compete. O constrói e o vive o quanto pode.

Como é um a experiência humana a ficção também trata de construir histórias fantásticas sobre esse fenômeno. Seja porque já são em si mesmas formas concretas de criação desse mundo que tangencia o outro mundo, seja porque de vez em quando trata dessa questão diretamente como tema para a criação.

Alguns filmes remetem a esse tema. Dois deles, Matrix e Avatar criam mundos diversos a partir da projeção de um futuro em que o homem, com o aparato tecnológico, cria dimensões outras que permitem sensações e a imagem de um mundo idealizado por alguém, e, portanto, a serviço desse alguém. É a sofisticação do mundo disputado e guerreado de forma intensa e desigual, mesmo com enredos de mocinhos e bandidos quando aqueles vencem estes. Coisas do cinema...

No filme A Vida é Bela, um pai vive com o filho o ambiente da segunda guerra na Itália. O amor incondicional do pai e sua preocupação de como seu filho se depararia com esse horror fez com que ele criasse a história dentro da história, um mundo dentro de outro. Nele seu filho poderia sair fazendo qualquer outra leitura e certamente mais velho, compreenderia o ato do pai.

No filme Adeus Lênin, desta vez ao contrário, o filho cria o mundo paralelo. A mãe, entusiasta do regime soviético, fica em coma e só volta desse coma quando o regime já havia caído. As recomendações médicas para o filho dão conta de que ele não deve criar situações em que a mãe convalescida tenha grandes emoções, precisa deixá-la tranquila, longe das tensões.

Assim, cria em sua casa barreiras imensas para que sua mãe enxergasse que a União 
Soviética persistia no mundo daquele apartamento.

O mundo real é voraz. O mundo que a gente cria e cultiva, é aquele que de fato é reconfortante e nos faz seguir adiante.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Tudo Passa

“Tudo passa, tudo passará.
E até lá, vamos viver.
Temos muito ainda por fazer.
Não olhe pra trás.
Apenas começamos.
O mundo começa agora.
Apenas começamos.”
(Renato Russo)


Em contradição à citação acima, não há como não pensar no sentimento de partida. Penso nele todos os dias, porque a cada segundo algo, alguém ou o momento vivido partem, ainda que anunciem o caminho para uma nova jornada. A vida é assim.

É como quando inicia o verão. Ele pode representar o apogeu de um ciclo da vida, já que nele são vivas e mais intensas as cores e as energias, nele são frenéticos os ânimos e mais visíveis as curvas tão propaladas com razão por Oscar Niemeyer. Por outro lado o verão pode representar que algo já foi. Um período que se encerra, o fecho de um ciclo.

É também como quando a gente olha uma foto nossa antiga e acha ridícula aquela roupa, aquele cabelo, mas daria tudo para poder de alguma forma voltar para aquele tempo.

É como quando a gente olha para trás e se lembra de alguém que não se pode mais ver de fato ou quando se anuncia essa possibilidade.

São questões de ponto de vista. Às vezes queremos voltar. Às vezes queremos apenas rememorar. Às vezes queremos a experiência antes que a impossibilidade de vivê-la nos apresente. Acho que é medo da morte e de outras coisas, sei lá.

De fato o tempo nos é cruel. Foi tratado no artigo Carta aos Meus Amigos, dedicado a Juarez Braga. Remoê-lo mais é demais para mim.

Mas estão todas essas coisas reservadas em algum lugar da mente e da memória, já que são contextualizadas de alguma forma e vividas ou revividas, tornando a passagem do tempo algo relativo.

Umas das formas de fazer reviravoltas com a passagem de algo ou de alguém, encontro numa figura semântica - a sinestesia.

Ela existe como idéia, portanto um produto humano, racionalizado para traduzir um fenômeno mental que funde ou confunde sentidos. Segundo um artigo da Wikipedia, sinestesia “é a relação de planos sensoriais diferentes: Por exemplo, o gosto com o cheiro, ou a visão com o tato. O termo é usado para descrever uma figura de linguagem e uma série de fenômenos provocados por uma condição neurológica.”

Naturalmente ela, a sinestesia, é capaz de tornar a memória mais viva. Com a mistura dos sentidos do tato, da visão, do paladar, do olfato, e da audição acho que a gente chega mais perto do real quando alguns deles estão presentes na experiência vivida.

Meu avô materno era um homem extremamente rústico, rústico o suficiente para ser capaz de arrancar o próprio dente, quando a dor era insuportável e a distância real e econômica o impedia de encontrar um consultório dentário nos anos 40 ou 50. Desse camarada, lembro de sua forma rústica, mas essa memória não seria completa sem seu cheiro e o tom de sua voz, essa última característica contraditoriamente tranqüila e serena.

Quando é verão e nos surpreende a chuva, só não ficamos totalmente surpresos com ela pelo cheiro. E a gente “vê” o cheiro de terra molhada porque vê a imagem da chuva caindo antes que os nossos olhos a encontrem. Essa memória fica cravada na mente em algum momento. Na minha e na de qualquer outra pessoa e certamente na do Marcos, que comigo trabalha e é completamente cego.

A boa música também é fantástica para produzir a paisagem vista pelos ouvidos. Sua vibração sempre nos remete a algo.

A memória também se constrói pela imagem produzida pelo contorno que é observado no tato com as palmas das mãos quando do toque, mesmo com os olhos fechados. A forma do objeto construída pelo tato é única.

Em contrapartida, vale também essa grande capacidade de ver o que passa, para aquelas coisas que nos causam sofrimento, daquelas que nos empurram para longe de nossos sonhos.

Mas, por bem, algumas memórias poderão ser revividas, revisitadas. Se não possível de forma real será no pensar.

De qualquer maneira, não há como não pensar no sentimento de partida e ele dói bastante.