“Eu não
posso causar mal nenhum
A não ser a
mim mesmo,
a não ser a
mim...”
A canção revela uma enorme contradição sobre essa idéia de
fazer o mal, da capacidade de produzi-lo, de reproduzi-lo, apesar de que talvez
Cazuza e Lobão a tenham escrito como um lamento de alguém que está cansado de
um tanto de coisas.
Diante de tanta iniqüidade no mundo, fazer o mal a alguém ou
no atacado a um monte de gente parece óbvio. São muitos os exemplos e basta ver
ou ler o noticiário da mídia sangrenta, ficar atento ao que se diz ou ao que se
escreve nestes meios e nas redes sociais para constatar que a maldade humana é
capaz sim de se projetar.
Alguns filósofos entendem que o Homem é bom, outros entendem
o contrário. Depende do contexto em que viveram, já que a filosofia deriva
disso, ou de serem eles por natureza mal ou bem humorados, conforme o caso.
Um tempero a mais nisso está em o quanto é relativo o
entendimento sobre o mesmo objeto, o mesmo assunto, quando comparado com as visões
das pessoas. E como estamos falando de filósofos, um deles parou de perseguir
posições absolutas e disse que “o homem é a medida de todas as coisas”. Seu
nome era Protágoras. Um dos gregos.
Se o homem é a medida de todas as coisas, logo podemos nos
libertar da engenhosa, cansativa e impossível construção de elaborar uma única forma
de pensar para então compreender, ou pelo menos tentar entender, que existe um
punhado de formas de pensar. É mais complexo, mas é bem melhor assim. Mais rico
e mais interessante.
Portanto, não há problema em pensar diferente. O problema
reside de fato em não pensar. Deixar
de pensar, e alguns fazem disso um exercício diário, não permite refletir sobre
si, sobre o outro, sobre o mundo. Mesmo a posição mais reacionária exige
argumento. Se ao menos tiver argumento há o que se debater, há conversa. Se
não, se esgota a desejada conversa, ela passa a ser impossível.
É como olhar
para uma janela que pode ter a dimensão de todo o cômodo ou ter poucos centímetros
de amplitude. Olhar o mundo pelos olhos de alguém pode ser fantástico ou uma
grande decepção. É preferível um lugar com janelas que ocupam todo o espaço do que um com paredes retas, cartesianas com alegorias que nos distraem. O mundo é plural e deve ser assim entendido. Mas o é em uma pluralidade sã.
Procuramos olhar o mundo pelos próprios olhos, mas quando o
exercício de fazê-lo é pelos olhos de alguém, queremos algo maior.
Porém o bombardeio de bestialidades está à mostra na time line da rede social. Bestialidades
reproduzidas com pouca elaboração de quem as faz e nenhuma de quem as reproduz.
Disseram nestes dias que um médico cubano não se comporta
como um médico, ou algo parecido. Mas médico é algo? Médico se comporta como
alguém? Acho que os médicos são “alguns” e seus comportamentos também devem ser
“alguns”. Definitivamente, não importa se são cubanos, brasileiros, canadenses,
italianos, marroquinos.
Reproduzem a imagem do Ministro do Supremo Tribunal Federal,
o Joaquim Barbosa, como a salvação do Brasil, sem compreender que o judiciário
é também, como o executivo e o legislativo, uma expressão da sociedade e, por
isso, cheio de contradições.
A questão central não é “achar isso ou aquilo”, mas sim “qual
o argumento disso ou daquilo”. As pessoas se perguntam sobre o que dizem antes
de dizer ou se perguntam antes de compartilhar?
Dizer algo é como contar histórias. Para contá-las devemos
incorporá-las, compreender sua dimensão, seu tempo, quem as criou e sua
personalidade e, ao recontá-las, trazer aquilo que acreditamos. Se não se
importam em compreender, logo não se importam com o que significa contar
histórias!
Por isso a contradição da música. Posso causar mal, muito
mal, para além de mim mesmo, se reproduzo coisas sem algo fundamental ao ser
humano: o pensar.
30 de agosto
de 2013.