quarta-feira, 24 de abril de 2013

GRANDES TORNOZELOS E CALCANHARES MUDARIAM O DESTINO DE AQUILES


O Cânone Ocidental, escrito por Harold Bloom, traz um apanhado da literatura e dos pensadores que redundam naquilo que pode ser um esforço, com muito custo é verdade, da síntese do pensamento e da cultura ocidental.

Lê-lo é um bom exercício para tentar compreender uma parte dos fundamentos que estão nos clássicos, que ao serem mais visitados, vão dar uma maior compreensão de onde estamos e de nossas contradições. Digo isso porque devo a eles mais disciplina e visitas.

Aquiles e outros mais são o arquétipo da nossa civilização. Ele é uma figura mítica. Antes fosse mística, por que aí poderíamos analisar a sua concretude, já que teria existido de fato. Mas Homero é quem o fez, com todas as controvérsias, em seus épicos escritos.

De qualquer forma, sendo mítica essa figura, ela foi produzida e ainda é reproduzida pela sociedade contemporânea a seu interesse. Um herói, invencível com valores morais e éticos, “tranquilo e infalível como Bruce Lee”, o arquétipo.

Por que é que precisamos disso? Que raio de pensamento é esse que temos de construir uma idéia de invencibilidade e que nela esteja sempre presente a imagem de heróis e que estes, apesar de criados por nós, nunca estão na gente. É como quando o super-homem, para salvar a reles mortal Lois Lane, fez o mundo girar ao contrário e voltar o tempo, salvando-a.

Acho que talvez porque é mais fácil sempre ser tributário1 de alguém ou de alguns. Por isso muita gente se sente tão bem consumindo coisas fúteis, cheias de significação fútil. Talvez também porque a gente carrega o fardo de um cristianismo católico-caótico, protestante e pentecostal poderoso, hierárquico, anacrônico e mercantilista que cerceia a diversificação da forma de se viver em nosso planeta, mas que nos dá um suposto alicerce, que vai além do significado real de Cristo. Talvez também porque a gente se sinta mais confortável em ser representado por alguém em vez de assumir o protagonismo possível.

É fato que vivemos de nossa suposta fortaleza, mas também acumulamos nossas reais fraquezas. Aquiles é um arquétipo, mas se tivesse um pouco mais de tornozelos, tornozelões e calcanhares de carne e osso, não teria sucumbido, ainda mais por causa de uma flechinha envenenada.

No fundo é um herói bem mequetrefe esse..

24 de abril, às 22:28

1 Diz-se que é tributário, na geografia, um rio que deságua em um outro ou no mar.


Um Índio
Caetano Veloso

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá
Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio

domingo, 14 de abril de 2013

DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS OPRIMEM CONTADORES DE MENTIRA

Para além de trágico para o movimento cultural em Suzano, o fechamento do espaço Contadores de Mentira, no Parque Maria Helena, é algo no mínimo curioso.

Fechar um espaço porque ele não possui todos os requisitos formais pode parecer algo bastante razoável, não fosse considerada a realidade como ela é em Suzano.

Para dar apenas um exemplo, boa parte dos estabelecimentos em ruas importantes da cidade possui algum tipo de irregularidade. Os debates realizados em torno da revisão do plano diretor da cidade mostraram que a revisão do zoneamento é necessária para torná-los regulares.

Porém, como se tratava de uma proposição do governo de Marcelo Candido, a oposição sem limites daquele período tomou todas as iniciativas para que ela não fosse aprovada.
  
O que fará a prefeitura, agora capitaneada por aqueles que eram os opositores de ontem, diante desse cenário em que parte importante da cidade possui irregularidades em tantos estabelecimentos.

Curiosamente, a letra fria da lei, a mão pesada do poder do Estado, pousou sobre as cabeças de um grupo de artistas, os Contadores de Mentira, que querem apenas sobreviver de forma colaborativa com artistas da cidade, em seu espaço.

Mas muitas vezes os fins justificam os meios. Questões formais menores imperaram para o fechamento do espaço, quando de fato para o caso os elementos de fundo são outros.

Todos os grupos em Suzano são o que são, com seus coletivos, com suas produções, o resultado do esforço permanente deles próprios. Grupos de teatro, o povo das artes plásticas, os músicos, enfim, os fazedores de cultura, devem observar que o ataque aos Contadores de Mentira, é um ataque ao teatro e a cultura de Suzano.

Nesse caso, o uso de dois pesos e duas medidas coloca o poder do Estado para sufocar aqueles que querem apenas o direito a expressão.

Que os artistas, todos, não fiquem na platéia sentados como se espera de um público bem educado, quietinho. Que rompam a quarta parede, invertam tudo, assumam o palco e nele se manifestem.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Poema em linha reta



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa(Álvaro de Campos)