segunda-feira, 15 de julho de 2013

EVITEMOS AVATARES

A tentativa de tornar virtual a vida não é algo de hoje. Muitos de nós, ou todos nós, exercitamos diariamente experimentar relações com pessoas e coisas de um jeito, no mínimo, diferente da usual.

Há muito tempo os videogames fazem isso. Tem gente que perde tempo precioso diante deles e acha que a vida reside neles, sem olhar a quem, do lado. Jogam o jogo. Crianças tudo bem... Elas são pequenas o suficiente para se ludibriarem ainda com isso.

Depois dos videogames, outras formas virtuais vieram. Os “tamagotchis” também surgiram. Eram os “amigos virtuais”. Tratava-se de programas que simulavam bebês, que precisavam de atenção (comer, brincar, estudar e outras coisas), se assistidos viravam um passarinho, se não, um morcego.

Os e-mails são a versão virtual das cartas, com a vantagem de serem instantâneos. Se quero enviar uma carta mando na hora que quero, mas o destinatário, por outro lado a lê quando quiser.

Digo isso, porque essa virtualização das coisas do cotidiano atingiram um patamar de sofisticação tamanho que não se trata mais de se criar uma interface, ou seja, até aqui estamos falando de mecanismos, de ferramentas que nos colocam como somos no mundo não real.

Ocorre que as versões mais atuais do mundo virtual, como esse feicebuque (parafraseando Tom Zé) cria algo diferente. Cria para além de uma interface virtual, uma personalidade virtual. O que chamo aqui de avatares nas redes sociais.

Quando a gente se encobre por detrás desse pano, a gente cria (e me incluo nisso) uma personalidade que dialoga pouco com a nossa das ruas, do trabalho, enfim, das relações sociais reais.

Assim, o meu eu virtual é diferente do meu eu real. É um tanto cômodo, no teclado atacar alguém. Me escondo em meu avatar. Depois, quando encontro a pessoa na rua, conversam as pessoas e não seus avatares. Aí são tapas nas costas e um jeito mais lento, mas também mais cadenciado de realizar essa disputa.

Temos amigos no feicebuque, que ao encontrar na rua não os vemos. Por que não os conhecemos na vida. Ter 1.000 amigos dá status, mas os conheço de fato? Por que interessa romper a barreira dos 1.000 ou 2.000 amigos? E preencher o limite máximo então, os 5.000 amigos?

Ser amigo dá trabalho. Impossível ter 5.000 amigos. Acho que uns 100 já ultrapassam a nossa capacidade de exercitar a amizade.

Outra questão é a profundidade das coisas nas redes sociais. São capazes de reproduzir com força pensamentos reacionários e com fraqueza o mais avançado, o democrático, o razoável. Reforçam visões absolutas e definitivas e enfraquecem aquelas que relativizam, que mais perguntam do que respondem.

Nesse sentido, aquilo que lemos tem uma profundidade impressionantemente rasa, comparada à capacidade de acumular informações da internet. As redes privilegiam a informação presta curta, rápida e, portanto, rasa.

Fotos bonitas com frases de efeito afetam mais. Textos longos, mais profundos, com mais de uma página, afetam muito menos. 

Mais uma: Na música ruim, o funkeiro diz: “tira foto no espelho pra postar no ‘feicebuque’”. A gente escolhe a melhor foto, o melhor ângulo, que nunca qualquer pessoa encontrará ao vivo. Portanto, além de mais agressivos e mais corajosos do que nós, os nossos avatares são
mais bonitos que nós.

Mas é possível que as coisas aconteçam no virtual? Acho que não. É no mundo real que as coisas acontecem. E no mundo real somos piores, mas é nele que as coisas acontecem, é nele que dialogamos.

Há quem seja mais ativo nas relações virtuais. É comum numa mesa de restaurante pessoas sentarem e não conversarem muito. Conversam com outras pessoas que não estão lá fisicamente. De novo a mesa real perde para a mesa virtual num lugar virtual.

É um contra-senso que meu avatar me supere, que eu seja um morto-vivo na vida e alguém “super legal” no virtual. Essa personalidade virtual que projetamos, e que representa o exagero ou a maquiagem do que somos não pode ser reconhecida como nós mesmos. Ao contrário. Que virem os nossos avatares os mortos-vivos e que sejamos vivos na vida.

O meu, a partir de hoje, passa a ser um desses mortos-vivos. Diálogos agora ou ao vivo, ou por correio eletrônico, ou por telefone...


Matemos nossas personalidades virtuais e se isso não for possível, evitemos os avatares.