segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Do mundo como ele se nos apresenta ou de fato como é


“Janaina é passageira
Passa as horas do seu dia em trens lotados
Filas de supermercados, bancos e repartições
Que repartem sua vida
Mas ela diz
Que apesar de tudo ela tem sonhos
Ela diz
Que um dia a gente há de ser feliz
(...)
Já não imagina
Quantos anos tem
Já na iminência
De outro aniversário
Janaina acorda todo dia às quatro e meia
Já na hora de ir pra cama, janaina pensa
Que o dia não passou
Que nada aconteceu
(Biquíni Cavadão)

Sempre acreditei que o mundo como é vivido não é exatamente o mundo. Aquilo que vemos e ouvimos, tateamos, cheiramos, gostamos, enfim, aquilo que sentimos não é o mundo como ele é. Coisa de quem acredita num mundo paralelo, considerando o mundo real e suas vicissitudes.

Esse entendimento está apoiado em um dado concreto que é a própria existência, e nesse caso da existência humana. Sem a idéia da humanidade isso não faria sentido.

Cada um vive num mundo, com sua observação, com suas vivências e fundamentalmente com a imagem criada a partir de suas representações sobre ele. O mundo não é como é, mas sim como o vemos de fato. Algo que não é uma “coisa”, mas como o vemos, como ele nos toca ou como queremos que ele seja.

Assim, o mundo é uma imagem daquilo que construímos. As pessoas são para nós aquilo que enxergamos. Os objetos também. Eles são outras coisas a serem descobertas no cotidiano, nas vivências com as quais nos deparamos.

Por isso, todo mundo cria um lugar na mente que representa o mundo que lhe compete. O constrói e o vive o quanto pode.

Como é um a experiência humana a ficção também trata de construir histórias fantásticas sobre esse fenômeno. Seja porque já são em si mesmas formas concretas de criação desse mundo que tangencia o outro mundo, seja porque de vez em quando trata dessa questão diretamente como tema para a criação.

Alguns filmes remetem a esse tema. Dois deles, Matrix e Avatar criam mundos diversos a partir da projeção de um futuro em que o homem, com o aparato tecnológico, cria dimensões outras que permitem sensações e a imagem de um mundo idealizado por alguém, e, portanto, a serviço desse alguém. É a sofisticação do mundo disputado e guerreado de forma intensa e desigual, mesmo com enredos de mocinhos e bandidos quando aqueles vencem estes. Coisas do cinema...

No filme A Vida é Bela, um pai vive com o filho o ambiente da segunda guerra na Itália. O amor incondicional do pai e sua preocupação de como seu filho se depararia com esse horror fez com que ele criasse a história dentro da história, um mundo dentro de outro. Nele seu filho poderia sair fazendo qualquer outra leitura e certamente mais velho, compreenderia o ato do pai.

No filme Adeus Lênin, desta vez ao contrário, o filho cria o mundo paralelo. A mãe, entusiasta do regime soviético, fica em coma e só volta desse coma quando o regime já havia caído. As recomendações médicas para o filho dão conta de que ele não deve criar situações em que a mãe convalescida tenha grandes emoções, precisa deixá-la tranquila, longe das tensões.

Assim, cria em sua casa barreiras imensas para que sua mãe enxergasse que a União 
Soviética persistia no mundo daquele apartamento.

O mundo real é voraz. O mundo que a gente cria e cultiva, é aquele que de fato é reconfortante e nos faz seguir adiante.

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