A tentativa de tornar
virtual a vida não é algo de hoje. Muitos de nós, ou todos nós, exercitamos
diariamente experimentar relações com pessoas e coisas de um jeito, no mínimo, diferente
da usual.
Há muito tempo os videogames
fazem isso. Tem gente que perde tempo precioso diante deles e acha que a vida
reside neles, sem olhar a quem, do lado. Jogam o jogo. Crianças tudo bem...
Elas são pequenas o suficiente para se ludibriarem ainda com isso.
Depois dos videogames,
outras formas virtuais vieram. Os “tamagotchis” também surgiram. Eram os “amigos
virtuais”. Tratava-se de programas que simulavam bebês, que precisavam de atenção
(comer, brincar, estudar e outras coisas), se assistidos viravam um passarinho,
se não, um morcego.
Os e-mails são a versão
virtual das cartas, com a vantagem de serem instantâneos. Se quero enviar uma
carta mando na hora que quero, mas o destinatário, por outro lado a lê quando
quiser.
Digo isso, porque essa
virtualização das coisas do cotidiano atingiram um patamar de sofisticação
tamanho que não se trata mais de se criar uma interface, ou seja, até
aqui estamos falando de mecanismos, de ferramentas que nos colocam como somos
no mundo não real.
Ocorre que as versões mais
atuais do mundo virtual, como esse feicebuque (parafraseando Tom Zé) cria algo
diferente. Cria para além de uma interface virtual, uma personalidade virtual.
O que chamo aqui de avatares nas redes sociais.
Quando a gente se encobre
por detrás desse pano, a gente cria (e me incluo nisso) uma personalidade que
dialoga pouco com a nossa das ruas, do trabalho, enfim, das relações
sociais reais.
Assim, o meu eu virtual é
diferente do meu eu real. É um tanto cômodo, no teclado atacar alguém. Me escondo
em meu avatar. Depois, quando encontro a pessoa na rua, conversam as pessoas e
não seus avatares. Aí são tapas nas costas e um jeito mais lento, mas também
mais cadenciado de realizar essa disputa.
Temos amigos no feicebuque,
que ao encontrar na rua não os vemos. Por que não os conhecemos na vida. Ter
1.000 amigos dá status, mas os conheço de fato? Por que interessa romper a
barreira dos 1.000 ou 2.000 amigos? E preencher o limite máximo então, os 5.000
amigos?
Ser amigo dá trabalho.
Impossível ter 5.000 amigos. Acho que uns 100 já ultrapassam a nossa capacidade
de exercitar a amizade.
Outra questão é a profundidade
das coisas nas redes sociais. São capazes de reproduzir com força pensamentos reacionários e com fraqueza o mais avançado, o democrático, o razoável.
Reforçam visões absolutas e definitivas e enfraquecem aquelas que relativizam,
que mais perguntam do que respondem.
Nesse sentido, aquilo que
lemos tem uma profundidade impressionantemente rasa, comparada à capacidade de
acumular informações da internet. As redes privilegiam a informação presta
curta, rápida e, portanto, rasa.
Fotos bonitas com frases de
efeito afetam mais. Textos longos, mais profundos, com mais de uma página,
afetam muito menos.
Mais uma: Na música ruim, o
funkeiro diz: “tira foto no espelho pra postar no ‘feicebuque’”. A gente
escolhe a melhor foto, o melhor ângulo, que nunca qualquer pessoa encontrará ao
vivo. Portanto, além de mais agressivos e mais corajosos do que nós, os nossos
avatares são
mais bonitos que nós.
Mas é possível que as coisas
aconteçam no virtual? Acho que não. É no mundo real que as coisas acontecem. E
no mundo real somos piores, mas é nele que as coisas acontecem, é nele que
dialogamos.
Há quem seja mais ativo nas
relações virtuais. É comum numa mesa de restaurante pessoas sentarem e não conversarem
muito. Conversam com outras pessoas que não estão lá fisicamente. De novo a
mesa real perde para a mesa virtual num lugar virtual.
É um contra-senso que meu
avatar me supere, que eu seja um morto-vivo na vida e alguém “super legal” no
virtual. Essa personalidade virtual que projetamos, e que representa o exagero
ou a maquiagem do que somos não pode ser reconhecida como nós mesmos. Ao
contrário. Que virem os nossos avatares os mortos-vivos e que sejamos vivos na
vida.
O meu, a partir de hoje,
passa a ser um desses mortos-vivos. Diálogos agora ou ao vivo, ou por correio
eletrônico, ou por telefone...
Matemos nossas personalidades
virtuais e se isso não for possível, evitemos os avatares.
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