Nos anos 80 o menino tinha uma
vida modesta. Digna, graças ao esforço única e exclusivamente de sua mãe, mas
cheia de privações. Ele não as enxergava porque nada além existia. O mundo
tinha apenas algumas quadras...
Vivia num bairro da periferia, lá
tinha suas relações e não extrapolava muito mais de seu território. Era assim
para ele e para os igualmente ou mais pobres e pronto.
No finalzinho dos anos 80 e
começo dos 90, já adolescente, consegue milagrosamente trabalhar, porque
trabalho era pouco comum para jovens e maiores de 40 anos. Aquele território do
menino, antes reduzido, se amplia, já que é Office Boy. Passa a conhecer com
profundidade o centro de São Paulo, a imponente Avenida Paulista, um pedacinho
dos Jardins, o Centro Cultural da Vergueiro, a Biblioteca Mario de Andrade, o
Mappin na praça Ramos de Azevedo.
Tudo tão perto agora, mas ainda
tão distante. O Mappin, loja de departamentos enorme, tinha de tudo um pouco e
aquela gentarada, de tudo, quase nada. Eram como os cachorros que olham as
máquinas de assar frango nas padarias. As máquinas ainda conhecidas como
televisões de cachorro.
O jovem recebia salário baixo e
como a inflação era assustadoramente alta, deixou de fazer o cursinho. Chegava
a receber num mês mais de um milhão, que nada valia.
O plano Real veio e estabilizou a
economia logo no primeiro ano de sua criação, 1994. Nos oito anos que
sucederam, o monstro da inflação desapareceu, mas só ele. O monstro da desigualdade
permaneceu o mesmo. O nordeste continuava sem acesso à água, à eletricidade, à
renda... O nosso personagem (o jovem), em São Paulo, continuava com salário bem
baixinho.
Em uma década nada de pobre sair
da sua. Nada de dividirem o bolo, o bolo era da elite brasileira, de terninho e
gravata azul. O jovenzinho se perguntava: - Ué, se a inflação que corroía os
salários acabou, porque eles continuavam tão pequenos? Por quê o Mappin continuava
tendo de tudo um pouco e aquela gente, de tudo, tão pouco?
Os anos 2000 vieram e o torneiro
mecânico ridicularizado pelas elites, tratado como um ignorante, alguém que se
devesse envergonhar, vira presidente.
Daí em diante, a realidade de
tantos muda. Ter carro e outros bens de consumo passa a ser realidade em tão
pouco tempo.
Depois do torneiro mecânico vem a
mulher presidente. Fazer faculdade, comprar a casa, poder cultivar sua terra,
viajar de avião, estudar no exterior, que antes era praticamente impossível,
ali acontecia.
O nosso personagem já adulto, nesta
fase vê tanta coisa mudar. Se pergunta como é que não fizeram isso antes. Fica
sem resposta. A única resposta que teve é aquela que a contraposição entre o
passado e o presente mostrou. O passado tão árido deve continuar assim, no
passado.
“Pata pata
is the name of the dance.
We do down
Joanesburg way”
A música é Pata Pata, de Miriam Makeba, cantora sul
africana. Saiu da África do Sul por conta do regime do Apartheid e depois dos
Estados Unidos por se associar aos Panteras Negras. Viveu em Guiné, Belgica, reconhecida
por organismos internacionais como importante ativista dos movimentos
emancipatórios africanos e dos direitos humanos, morreu em 2008.
9 de outubro de 2014
9 de outubro de 2014
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