quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Do Apartheid Social ao convívio cada vez menos desigual

Nos anos 80 o menino tinha uma vida modesta. Digna, graças ao esforço única e exclusivamente de sua mãe, mas cheia de privações. Ele não as enxergava porque nada além existia. O mundo tinha apenas algumas quadras...
Vivia num bairro da periferia, lá tinha suas relações e não extrapolava muito mais de seu território. Era assim para ele e para os igualmente ou mais pobres e pronto.
No finalzinho dos anos 80 e começo dos 90, já adolescente, consegue milagrosamente trabalhar, porque trabalho era pouco comum para jovens e maiores de 40 anos. Aquele território do menino, antes reduzido, se amplia, já que é Office Boy. Passa a conhecer com profundidade o centro de São Paulo, a imponente Avenida Paulista, um pedacinho dos Jardins, o Centro Cultural da Vergueiro, a Biblioteca Mario de Andrade, o Mappin na praça Ramos de Azevedo.
Tudo tão perto agora, mas ainda tão distante. O Mappin, loja de departamentos enorme, tinha de tudo um pouco e aquela gentarada, de tudo, quase nada. Eram como os cachorros que olham as máquinas de assar frango nas padarias. As máquinas ainda conhecidas como televisões de cachorro.
O jovem recebia salário baixo e como a inflação era assustadoramente alta, deixou de fazer o cursinho. Chegava a receber num mês mais de um milhão, que nada valia.
O plano Real veio e estabilizou a economia logo no primeiro ano de sua criação, 1994. Nos oito anos que sucederam, o monstro da inflação desapareceu, mas só ele. O monstro da desigualdade permaneceu o mesmo. O nordeste continuava sem acesso à água, à eletricidade, à renda... O nosso personagem (o jovem), em São Paulo, continuava com salário bem baixinho.
Em uma década nada de pobre sair da sua. Nada de dividirem o bolo, o bolo era da elite brasileira, de terninho e gravata azul. O jovenzinho se perguntava: - Ué, se a inflação que corroía os salários acabou, porque eles continuavam tão pequenos? Por quê o Mappin continuava tendo de tudo um pouco e aquela gente, de tudo, tão pouco?
Os anos 2000 vieram e o torneiro mecânico ridicularizado pelas elites, tratado como um ignorante, alguém que se devesse envergonhar, vira presidente.
Daí em diante, a realidade de tantos muda. Ter carro e outros bens de consumo passa a ser realidade em tão pouco tempo.
Depois do torneiro mecânico vem a mulher presidente. Fazer faculdade, comprar a casa, poder cultivar sua terra, viajar de avião, estudar no exterior, que antes era praticamente impossível, ali acontecia.
O nosso personagem já adulto, nesta fase vê tanta coisa mudar. Se pergunta como é que não fizeram isso antes. Fica sem resposta. A única resposta que teve é aquela que a contraposição entre o passado e o presente mostrou. O passado tão árido deve continuar assim, no passado.



“Pata pata is the name of the dance.
We do down Joanesburg way”


A música é Pata Pata, de Miriam Makeba, cantora sul africana. Saiu da África do Sul por conta do regime do Apartheid e depois dos Estados Unidos por se associar aos Panteras Negras. Viveu em Guiné, Belgica, reconhecida por organismos internacionais como importante ativista dos movimentos emancipatórios africanos e dos direitos humanos, morreu em 2008.


9 de outubro de 2014

Nenhum comentário:

Postar um comentário