sábado, 7 de abril de 2012

CARTA AOS MEUS AMIGOS




Dia desses me peguei a pensar sobre o tempo, como a gente o sente. A pensar como passa ligeiro quando nos deparamos com uma tarefa quotidiana, ao constatar o quanto uma criança cresce rápido, assim como para viver a própria vida. A pensar sobre como nos escapa rapidamente. Em como parece com a areia fina e seca que foge das mãos por entre os dedos, por mais que a gente se esforce em segurá-la. Areia de ampulheta. Aquele tempo cantado pelo DJ Thaíde “que não volta nunca mais”.
Pensei no futuro que vem chegando, na precisão do relógio. O novo, o incerto e incógnito. A vanguarda! Ele compreende as coisas do mundo com frescor, com a leitura moderna e singular, capaz de explicar e solucionar tudo.
Já o passado sabido, que também carrega seus mistérios, por outro lado tem a capacidade de recapitular. Fruto do acúmulo histórico narra, faz a crítica, entende outro tanto de coisas. É a memória de tudo e por isso é capaz até de antever para onde vai o novo, já que muitas vezes é o velho-novo, o eterno retorno de Nietzsche.
A construção lógica do tempo estabelece uma referência sobre aquilo que vem e o que passa. Na sua métrica cartesiana pretende bestamente pôr algum controle sobre aquilo que não nos pertence. Mas pelo mesmo raciocínio lógico e, portanto humano, ouvi de um grande amigo, que a gente é que passa por ele (o tempo). Está aí parte da resposta. Tudo não é nada além de uma questão de escala. De fato a gente é que passa por ele!
Isso permite compreender a frágil presença da existência, pelo menos a do indivíduo. É como o velho pescador de Hemingway, em “O Velho e o Mar”, que se perde em meio à imensidão do oceano numa épica batalha contra um peixe e que dela resulta um sentimento de força, de grandeza, mas que morrerá junto com o velho.
Individualmente, viemos do nada e para ele vamos. Pode demorar algum tempo, mas vamos. Como me disse um companheiro, à luz da definição que parte de um filósofo, cujo nome não me recordo, de que a “existência é algo entre dois nadas”.
Apesar disso tudo, somos instintivamente impulsionados a fazer, a fazer sempre, enquanto aquele mesmo tempo permita. É, pois, da natureza humana. Em erros e acertos, construímos algo que efetivamente sabe-se lá onde vai dar. A gente faz coisas, constrói edifícios, o nosso mundo, um punhado de idéias e conceitos, promove mudanças.
Tentamos a todo custo nos tornar imortais ou imortalizar algo. Buscamos acreditar em algo além da vida por meio da fé, projetamos os genes à diante, tentamos fazer e marcar a história. Usamos uma série de artifícios numa engenhosa tentativa de contra-atacar e de contrariar o rigoroso e impassível tempo.
Há poucos dias perdemos um grande companheiro. Juarez Araújo Braga, o professor Juarez, ou simplesmente o Juju, como também era conhecido. Falo dele, mas tomo a liberdade de citá-lo como exemplo de tantos outros de grande valor também nos deixaram.
Ele representava a história viva de um período tão importante, mas que já vem sendo de forma sistemática colocado de canto, num canto que tende ao esquecimento. Foi militante do Partido Comunista, o partidão, numa época em que era muito mais difícil assumir uma postura à esquerda.
Filósofo, formado tardiamente para os padrões comuns escrevia muito, assim como pensava. Com mais de setenta anos, quando o conheci, não negava, ao contrário, nos convocava a uma mesa de bar, local onde “resolvemos todos os problemas do mundo”, com muita disposição, alegria e boa conversa.
Ficará assim na minha memória, enquanto ela existir.
Temos de contar a nossa história, daqueles que estiveram e que estão conosco. Faço e farei isso sempre. Celebrar a vida acima de tudo entendendo a sua grandeza e fragilidade, especialmente daqueles que me cercam, de forma que a gente possa sempre lembrar, reconhecer e cuidar uns dos outros.
O tempo é o que nos resta.

Outubro de 2010

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