Dia desses me peguei a pensar
sobre o tempo, como a gente o sente. A pensar como passa ligeiro quando nos
deparamos com uma tarefa quotidiana, ao constatar o quanto uma criança cresce
rápido, assim como para viver a própria vida. A pensar sobre como nos escapa
rapidamente. Em como parece com a areia fina e seca que foge das mãos por entre
os dedos, por mais que a gente se esforce em segurá-la. Areia de ampulheta. Aquele
tempo cantado pelo DJ Thaíde “que não volta nunca mais”.
Pensei no futuro que vem
chegando, na precisão do relógio. O novo, o incerto e incógnito. A vanguarda! Ele
compreende as coisas do mundo com frescor, com a leitura moderna e singular,
capaz de explicar e solucionar tudo.
Já o passado sabido, que também carrega seus
mistérios, por outro lado tem a capacidade de recapitular. Fruto do acúmulo
histórico narra, faz a crítica, entende outro tanto de coisas. É a memória de
tudo e por isso é capaz até de antever para onde vai o novo, já que muitas
vezes é o velho-novo, o eterno retorno de Nietzsche.
A construção lógica do tempo estabelece
uma referência sobre aquilo que vem e o que passa. Na sua métrica cartesiana
pretende bestamente pôr algum controle sobre aquilo que não nos pertence. Mas pelo
mesmo raciocínio lógico e, portanto humano, ouvi de um grande amigo, que a
gente é que passa por ele (o tempo). Está aí parte da resposta. Tudo não é nada
além de uma questão de escala. De fato a gente é que passa por ele!
Isso permite compreender a frágil
presença da existência, pelo menos a do indivíduo. É como o velho pescador de
Hemingway, em “O Velho e o Mar”, que se perde em meio à imensidão do oceano
numa épica batalha contra um peixe e que dela resulta um sentimento de força,
de grandeza, mas que morrerá junto com o velho.
Individualmente, viemos do nada
e para ele vamos. Pode demorar algum tempo,
mas vamos. Como me disse um companheiro, à luz da definição que parte de um
filósofo, cujo nome não me recordo, de que a “existência é algo entre dois
nadas”.
Apesar disso tudo, somos
instintivamente impulsionados a fazer, a fazer sempre, enquanto aquele mesmo
tempo permita. É, pois, da natureza humana. Em erros e acertos, construímos
algo que efetivamente sabe-se lá onde vai dar. A gente faz coisas, constrói edifícios,
o nosso mundo, um punhado de idéias e conceitos, promove mudanças.
Tentamos a todo custo nos tornar
imortais ou imortalizar algo. Buscamos acreditar em algo além da vida por meio
da fé, projetamos os genes à diante, tentamos fazer e marcar a história. Usamos
uma série de artifícios numa engenhosa tentativa de contra-atacar e de
contrariar o rigoroso e impassível tempo.
Há poucos dias perdemos um
grande companheiro. Juarez Araújo Braga, o professor Juarez, ou simplesmente o
Juju, como também era conhecido. Falo dele, mas tomo a liberdade de citá-lo como
exemplo de tantos outros de grande valor também nos deixaram.
Ele representava a história viva
de um período tão importante, mas que já vem sendo de forma sistemática
colocado de canto, num canto que tende ao esquecimento. Foi militante do
Partido Comunista, o partidão, numa época em que era muito mais difícil assumir
uma postura à esquerda.
Filósofo, formado tardiamente
para os padrões comuns escrevia muito, assim como pensava. Com mais de setenta
anos, quando o conheci, não negava, ao contrário, nos convocava a uma mesa de
bar, local onde “resolvemos todos os problemas do mundo”, com muita disposição,
alegria e boa conversa.
Ficará assim na minha memória,
enquanto ela existir.
Temos de contar a nossa
história, daqueles que estiveram e que estão conosco. Faço e farei isso sempre.
Celebrar a vida acima de tudo entendendo a sua grandeza e fragilidade, especialmente
daqueles que me cercam, de forma que a gente possa sempre lembrar, reconhecer e
cuidar uns dos outros.
O tempo é o que nos resta.
Outubro de 2010
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