O crescimento vertiginoso das visões
de ultra-direita em todo o mundo é um fato. Elas se mostram de diversas formas.
Pelas impressões dadas em frequentes manifestações individuais, assim como pelo
fortalecimento de organizações que defendem diretamente seus posicionamentos, implicando
na forma de condução do Estado, sobre o mercado ou até sobre o comportamento
das pessoas.
Estão pautados principalmente pela
intolerância às diferenças no padrão de comportamento que se manifestam nas orientações sexuais, nas opções políticas, nas opções religiosas, nos traços étnicos
e culturais diferentes dos seus e principalmente na defesa da priorização dos
direitos individuais em detrimento dos coletivos.
Propagam-se de forma veloz, apoiadas
nos recursos trazidos pela revolução tecnológica que vivemos nos últimos anos,
pois, se é verdade que eles tem garantido maior troca de informações e portanto,
o aprimoramento do conhecimento sobre nossas diferenças, contraditoriamente tem
ecoado, espantosamente por meio de jovens, pensamentos xenófobos, racistas, islamofóbicos,
homofóbicos e de ataque aos direitos humanos.
Os Estados, para alguns, devem criminalizar
mecanismos como os movimentos sociais, devem desonerar o sistema produtivo a
partir da redução dos direitos dos trabalhadores, devem afrouxar o controle
sobre o mercado imobiliário favorecendo a especulação, devem levar ao mínimo a
regulação sobre o mercado produtivo e financeiro, adotar medidas desequilibradas
nas relações comerciais internacionais e ter largo poder de polícia e bélico
para assegurar a devida tranquilidade nessa ordem estabelecida, assim como para
seu aprofundamento.
São muitos os exemplos de fatos
recentes preocupantes, para além dos históricos já conhecidos.
No ano de 2011, A Bolívia deveria ser invadida. A saída negociada em torno do impasse da questão energética era
demonstração de fraqueza. Tantos, a qualquer tempo declaram publicamente nas
redes sociais sua aversão aos nordestinos, aos negros, aos homossexuais. Muitos
atacam sistematicamente programas sociais brasileiros que evitam milhões de
mortes na miséria, que emancipam outros milhões e que garantem o acesso à
formação acadêmica, aos bens de consumo e a terra, sob a magnífica lógica contrária
do “ensinar a pescar em vez de dar o peixe”, como se ele, o “peixe” fosse tão
fácil de se agarrar.
Foram mortos quase uma centena de
jovens na Noruega, em 23 de julho de 2011. Três crianças e um adulto judeus
mortos na França por neonazistas em 19 de março de 2012. Avançaram organizações
como o Tea Party, nos Estados Unidos e governos na Europa que buscam reproduzir
um modelo em que o aparato estatal deve seguir a extensa e sofisticada cartilha
dos interesses do GRANDE capital.
Nesse contexto de intolerância, os
atos de violência como os citados esperam somente a oportunidade. Eles representam
a ponta do iceberg de pensamentos e posicionamentos inconfessáveis que alimentam o ódio que vem avançando na forma de um traço comportamental e
cultural do pensamento hegemônico vigente.
Naturalmente, essa sofisticada
engenharia não está, e ainda bem, imune à reação e resistência. Assim como o
mundo assiste ao avanço da extrema-direita, houve manifestações contrárias
certas vezes mesmo violentas, como a que observamos há algum tempo na Inglaterra,
sobre a qual caberia um debate específico, já que o estopim, mais do que um
fato pontual da morte de uma pessoa, foi na verdade uma reação a crescente
atmosfera de cerceamento, de intolerância e da constante redução dos direitos,
entre outros à assistência social.
Porém, as mais importantes e que
devem ser incentivadas, são as iniciativas de resistência que disputam na
sociedade a compreensão de que a diversidade, respeitada e estimulada, é a
chave do processo civilizatório. Compreender que é normal ser diferente se faz
necessário e a principal forma de expressão dessa diversidade se dá por
condições a serem criadas e incentivadas de se deparar com a diferença. O
mecanismo mais eficiente para essa construção é o acesso à cultura. Mas porque
também não dizer, das culturas.
Nos últimos anos, o conceito governamental
de cultura no Brasil ampliou seu leque para além da visão tradicional que
considerava apenas algumas áreas das artes, notadamente as classificadas como
eruditas, como formas de expressão cultural. Hoje, compreende-se como cultura
uma vasta gama de expressões e de costumes, dentre tantas outras coisas. Elas
se mantêm resistentes a um padrão de comportamento trazido e incentivado no
processo de globalização que ganha cada vez mais musculatura, o de consumo.
Este embate, um conflito permanente e
desigual, existe em qualquer lugar. É disputado em trincheiras igualmente
desiguais, tanto que por muitas vezes o poderio do capital compra, incorpora às
suas estratégias de negócio, expressões e manifestações culturais.
Transformam-nas em produtos, e como qualquer outro produto, embutido neles a mais-valia. São capazes de comprar,
transformar a capacidade de criação em um objeto de mercado. Enfim, se apodera
dos meios de produção do outro, neste caso dos fazedores de cultura, do povo, tamanha
a sua sofisticação.
Porém, como disse certa vez um grande
estudioso do processo de globalização, o geógrafo Milton Santos, da mesma forma
que existe uma intensa pressão do comportamento hegemônico sobre os lugares e
sobre as culturas locais, há também nestes lugares uma resistência que pretende
algo muito simples, mas muito valioso: a busca do direito à identidade.
Assim, entre vitórias e derrotas,
essa disputa segue seu curso.
Quanto ao papel do Estado, igualmente
em disputa, do lado de cá, entendo que ele, como síntese da sociedade, deve
incorporar a diversidade como algo a ser preservado, estimulado e difundido.
Conceituar a cultura assim, de forma
ampla, cria as condições para que se possa idealizar e implantar políticas que
explorem cada vez mais a garantia do acesso, da livre manifestação cultural e
da compreensão de um mundo diverso como de fato é.
A crescente oportunidade de se
deparar com a diferença, compreendê-la e aprender com ela, têm um efeito que
colabora com o avanço da humanidade. Ampliar esse debate é fundamental.
Não apenas a tolerância, mas o
efetivo respeito e o apreço pelo diferente representam a mais eficiente
resposta. Certamente está aí um dos caminhos para a construção da justiça, da fraternidade
e da paz no mundo, ainda que sob tensão permanente.
20 de março de 2012, em Suzano.
Nenhum comentário:
Postar um comentário