O Cânone Ocidental, escrito por
Harold Bloom, traz um apanhado da literatura e dos pensadores que redundam
naquilo que pode ser um esforço, com muito custo é verdade, da síntese do pensamento e da
cultura ocidental.
Lê-lo é um bom exercício para
tentar compreender uma parte dos fundamentos que estão nos clássicos, que ao
serem mais visitados, vão dar uma maior compreensão de onde estamos e de nossas
contradições. Digo isso porque devo a eles mais disciplina e visitas.
Aquiles e outros mais são o arquétipo
da nossa civilização. Ele é uma figura mítica. Antes fosse mística, por que aí
poderíamos analisar a sua concretude, já que teria existido de fato. Mas Homero
é quem o fez, com todas as controvérsias, em seus épicos escritos.
De qualquer forma, sendo mítica essa figura, ela foi produzida e ainda é reproduzida pela sociedade contemporânea a seu interesse. Um herói, invencível com valores morais e éticos, “tranquilo e infalível como Bruce Lee”, o arquétipo.
Por que é que precisamos disso? Que raio de pensamento é esse que temos de construir uma idéia de invencibilidade e que nela esteja sempre presente a imagem de heróis e que estes, apesar de criados por nós, nunca estão na gente. É como quando o super-homem, para salvar a reles mortal Lois Lane, fez o mundo girar ao contrário e voltar o tempo, salvando-a.
Acho que talvez porque é mais fácil sempre ser tributário1 de alguém ou de alguns. Por isso muita gente se sente tão bem consumindo coisas fúteis, cheias de significação fútil. Talvez também porque a gente carrega o fardo de um cristianismo católico-caótico, protestante e pentecostal poderoso, hierárquico, anacrônico e mercantilista que cerceia a diversificação da forma de se viver em nosso planeta, mas que nos dá um suposto alicerce, que vai além do significado real de Cristo. Talvez também porque a gente se sinta mais confortável em ser representado por alguém em vez de assumir o protagonismo possível.
É fato que vivemos de nossa suposta fortaleza, mas também acumulamos nossas reais fraquezas. Aquiles é um arquétipo, mas se tivesse um pouco mais de tornozelos, tornozelões e calcanhares de carne e osso, não teria sucumbido, ainda mais por causa de uma flechinha envenenada.
No fundo é um herói bem mequetrefe esse..
24 de abril, às 22:28
1 Diz-se que é tributário, na geografia, um rio que deságua em um outro ou no mar.
Um Índio
Caetano Veloso
Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante
Depois de
exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
Virá,
impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá
Um índio
preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico
Num ponto
equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito
E aquilo
que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio
fiquei pensando.....
ResponderExcluirnessa necessidade que temos de construir uma ideia de invencibilidade é uma maneira escamotear da realidade da finitude. Estamos aqui e vamos morrer. nada é mais certo do que isso. mas é duro encarar a finitude, a ideia da morte.
a produção de heróis que vencem a morte, quando não são imortais, deve caminhar por ai. de uma certa proteção.
talvez, talvez....
fiquei pensando também que os tais arquétipos parecem nos tornar, quase que obrigatoriamente, tributários. ou seremos analisados a partir de um arquétipo, ou tentaremos nos moldar para nos tornarmos (ao menos um pouco) parecidos com um ou outro arquétipo.
ResponderExcluirmas acho que há espaço para alguma invenção e para nos tornarmos uns arquétipos meio trans-arquétipos: aquiles usando tornozeleiras, por exemplo!